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Quatro razões para gostar de nós. Mas estas vêm de fora.

Cultura

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Bola. Romance. Pintura. Poesia. E uma revolução pelo meio. O que andam a escrever lá fora sobre Portugal sem precisar de falar de Guterres, turismo e paparoca?

Portugal está na moda. A frase é banal? Pois repita-se até à exaustão para que se afastem os maus agoiros: Portugal está na moda. Lamúrias e défice à parte, do estrangeiro também chegam razões para gostarmos do que vemos ao espelho. Não, não é apenas o turismo, a gastronomia e Guterres, o engenheiro António que vai, em breve, mandar na ONU. A nomeação ofuscou outros méritos e nem sequer é preciso recorrer a Cristiano Ronaldo ou Siza Vieira para destacá-los. As últimas semanas deram fartas razões – pelo menos mais quatro, vá - para voltar a alimentar o ego deste eterno País dos subalimentados do sonho, parafraseando Natália Correia. E a poesia também está na ementa. Ora leia.

A segunda revolução portuguesa

“O futebol que se lê”. É este o lema da revista espanhola Panenka, um verdadeiro fenómeno jornalístico e literário editado do lado de lá da fronteira, onde não faltam os ângulos sociais, culturais e políticos, sem o risco de serem apanhados fora de jogo. O número deste mês é, pelo menos do ponto de vista de um leitor português, de babar. E chorar por mais. A (segunda) revolução portuguesa é o título da capa ilustrada com a taça do campeão europeu recheada de cravos. Uma edição onde cabe um artigo sobre as razões do triunfo nacional em Paris assinado pelo analista de futebol Rui Malheiro, uma entrevista com Nani – “Ganhar a Eurocopa tirou-nos muitos complexos como País” – um retrato do Sporting e do seu presidente Bruno de Carvalho, e ainda um perfil do avançado Éder, assinado pelo jornalista e escritor Miguel Lourenço Pereira. Luxo. Mesmo.

Um mergulho no romance português

Foi exatamente isso que o Libération decidiu fazer há poucas semanas, com entrevistas a Gonçalo M. Tavares e a Valter Hugo Mãe. A obra do primeiro é desvendada a pretexto do lançamento de Matteo Perdeu o Emprego em território gaulês, enquanto, no caso do segundo, a conversa parte da edição francesa de O Filho de Mil Homens. Há também pequenas referências elogiosas a Valério Romão e Rui Zink. Três páginas suculentas sobre a geração de escritores après José Saramago e António Lobo Antunes, que se afirma além-fronteiras, e recebe desvanecidos retratos nas páginas mais recomendadas da Imprensa internacional.

Paula Rego, ainda e sempre

“É horrível ser tão velha e ainda com tanto medo”. A frase, com toda a carga que só Paula Rego lhe poderia dar, é o título da entrevista com a pintora que a edição de domingo do londrino Telegraph, publicou no início deste mês. A inauguração de uma exposição na galeria Marlborough, na qual se inclui a série Avestruzes Bailarinas, dá o mote para um longo artigo sobre a artista plástica portuguesa que, aos 81 anos, ainda se sente uma criança assustada. Com residência fixada em Inglaterra há precisamente 40 anos, Paula Rego recebeu em 2010 a Ordem do Império Britânico, com o grau Dama Oficial, pelo seu contributo para as artes. Um episódio e um reconhecimento que ela recorda numa deliciosa conversa que atravessa o seu percurso pessoal e artístico.

Portugal e “o poeta favorito da América”

Billy Collins não é apenas um poeta popular e consagrado nos Estados Unidos. Nascido em Nova Iorque e publicado por cá pela editora Averno, a sua obra continua a passar com aclamação pelo crivo dos mais exigentes críticos literários norte-americanos. Editado no início deste mês, The Rain in Portugal, o seu último livro, retoma o universo do poeta – uma certa melancolia quotidiana que nem sequer deixa de fora os versos sobre o seu gato. Mas, desta vez, inclui um poema intitulado On Rhyme (ler abaixo) onde Portugal ganha direito à posteridade no percurso literário daquele que o Wall Street Journal considerou “o poeta favorito da América”. Esta edição de Billy Collins é já número 1 de vendas no site Amazon.

On Rhyme

It’s possible that a stitch in time
might save as many as twelve or as few as three,
and I have no trouble remembering
that September has thirty days.
So do June, November, and April.

I like a cat wearing a chapeau or a trilby,
Little Jack Horner sitting on a sofa,
old men who are not from Nantucket,
and how life can seem almost unreal
when you are gently rowing a boat down a stream.

That’s why instead of recalling today
that it mostly pours in Spain,
I am going to picture the rain in Portugal,
how it falls on the hillside vineyards,
on the surface of the deep harbors

where fishing boats are swaying,
and in the narrow alleys of the cities
where three boys in tee shirts
are kicking a soccer ball in the rain,
ignoring the window-cries of their mothers.