Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

“Deram um Nobel a um efabulador? Pois bem, nós merecêmo-lo!”

Cultura

  • 333

Dario Fo, prémio Nobel da Literatura 1997, partiu esta quinta-feira, ironia suprema, no dia em que foi anunciado um outro Nobel da Literatura, Bob Dylan, que também não é um escritor no sentido convencional do termo. Ator, encenador, dramaturgo, pintor, ativista político, o italiano era ainda o que a Academia sueca dele disse: um bobo que usava o riso para denunciar as injustiças sociais. Recordamos aqui a entrevista que deu à VISÃO, em 2002

Dario Fo pôs de pé a plateia do auditório Europarque, atenta à sua Lição-Espectáculo, dada num sábado, 7 de setembro de 2002. Uma ovação como as muitas outras que já teve, mas a que responde, visivelmente agradado. Depois, o magistral actor, mestre da Commedia Dell'Arte, veste um casaco azul-marinho bem comportado, coloca o inseparável Borsalino de palha na cabeça e circula, mãos atrás das costas, pela exposição Bonecos com Raiva e Sentimento, uma retrospectiva imensa de todo o seu teatro, incluindo figurinos, cartazes, fotografias, momentos. Uma exposição que, no âmbito do Festival Imaginarius (co-organização do Festival Sete Sóis, Sete Luas e da Câmara Municipal da Feira), revela a carreira ímpar, o casamento e a colaboração profissional com Franca Rame [1929-2013], a esposa, visivelmente tão amada como quando se conheceram, há 55 anos. Sucedem-se ali os grandes momentos da história política e cultural contemporânea de Itália.

Nascido em San Giano, Itália, a 26 de Março de 1926, filho de Felice, um socialista chefe de estação, e de Pina Rota, seria o amor a fazê-lo abraçar o teatro e a contestação. Ao lado da atriz Franca Rame, com quem casou em 1954, Fo fundou várias companhias de teatro. Militante comunista, não escapou às grades de prisão nem à tortura de ver a sua mulher raptada e violada, como castigo pelas convicções políticas de ambos. As suas peças, mais de 70, estão traduzidas em todo o mundo. O Vaticano vetou-o, os EUA recusaram-se a recebê-lo durante muito tempo, a televisão italiana barrou-lhe a entrada, anos a fio. O Prémio Nobel de Literatura que lhe foi atribuído em 1997, contava ele 71 anos, consagrou-lhe o nome e o percurso. Entre o riso e o choro, a coerência ideológica e a consciência social, a sua vida e o seu talento, Dario Fo é, aos 76 anos, o mesmo homem de sempre. Brilhante, mágico, um sedutor de plateias, um grande humanista.

Antes e depois da atribuição do Prémio Nobel, sempre o definiram como um clown, desafiador e denunciador da autoridade. Reconhece-se, ainda, nesta descrição?

Sim, reconheço-me nessa definição do clown, mas se ela for além da de palhaço. Tal como acontece no teatro de Shakespeare, onde encontramos essa personagem pela primeira vez: é ele que interpreta, por exemplo, o diálogo sobre a morte. Fala com Hamlet no registo da ironia. O seu nível de comicidade é muito elevado, não tem nada a ver com aquilo que, hoje, pensamos deles. Um verdadeiro clown, o da tradição, é o Charlie Chaplin. É um efabulador, um grande contador de histórias, e não aquela figura que anda às cambalhotas pelo chão.

O que é um bom contador de histórias?

É aquele que sabe fazer uma síntese e colocar em evidência a situação. Sobretudo, o que sabe retirar o que é banal e óbvio, denunciar as regras da sociedade. Eu nasci num país de contadores de histórias e, ainda antes de aprender a falar, aprendi a contar histórias.

Falando de ironia, ganhou o Prémio Nobel da Literatura que, comparada com a dramaturgia, é sempre vista como o parente rico.

Pensa-se que o mais importante é a literatura! Que a escrita teatral não é literatura! O teatro, nomeadamente o que faço, é, sobretudo, o teatro da efabulação, do monólogo. E qual é o momento mais alto da efabulação? Homero. Ele é o maior dos efabuladores, e as histórias que contava nasceram de outras. Homero colocou em cena o trabalho coletivo de um povo e inseriu-o na história de Tróia e do regresso de Ulisses. Tal como acontece na tradição das histórias de muitos povos, como o germânico, o francês, o indiano. O que são As Mil e uma Noites? É um trabalho coletivo, infinito. Toda a origem da cultura humana é a efabulação. A literatura e a escrita vêm depois. Deram um Nobel a um efabulador? Pois bem, nós merecêmo-lo!

Numa entrevista da época, afirmou ter a certeza de que, a seguir, seria José Saramago a ganhar o Nobel. Porquê?

Lembro-me perfeitamente de dizer a Saramago: «Não te preocupes, no próximo ano é a tua vez.» Porque eu sabia que ambos tínhamos chegado à reta final, e que eu venci por um metro. Era óbvio que bastava esperar um ano.

Hoje, com tanta informação a circular e as subculturas da Net, muito mudou. Como se sente, neste novo mundo?

Fiz televisão, cinema, marionetas, pintura, tudo! Qualquer meio de expressão para mim é bom, belo. Nunca me fechei, não tenho um clichê. Se, no futuro, a invenção fantástica da realidade que é o espetáculo passar pelo computador, arranjarei maneira de o fazer. Não sou aquele autor que se tranca no seu quartinho e escreve, olhando, de vez em quando, pela janela para saber o que se passa no mundo. Oiço as necessidades dos outros. Quando escrevo uma ideia, chamo amigos e discutimo-la. Temos um teatro de encontro com o público. As pessoas vêm até nós para discutir o que devemos fazer, não para ver o que fazemos. E fazemos debates épicos! A verdadeira razão por que o Partido Comunista, a certa altura, votou o nosso teatro ao ostracismo, não foram as peças! Foi o debate! Porque as peças serviam para o realizar. Por exemplo, numa ocasião, na Sardenha, prenderam-me. Não foi mais do que um dia e uma noite, porque houve uma sublevação da população, 5 mil pessoas manifestaram-se contra a minha prisão.

Desaparecido aos 90 anos, Dario Fo foi um clown pensador, um artista que quis ser artista plástico antes de dedicar-se ao teatro

Desaparecido aos 90 anos, Dario Fo foi um clown pensador, um artista que quis ser artista plástico antes de dedicar-se ao teatro

Foi preso em várias ocasiões, aliás. Que balanço faz das consequências da sua militância comunista?

Digamos que, do ponto de vista do discurso ideológico do comunismo, nunca fui amado pela direção do Partido Comunista, em Itália. Porque sempre estive contra o despotismo, aquela teologia da esperteza, do governar por governar a todo o custo. Sempre fui pela democracia, primeiro e principalmente no mundo do trabalho.

Vendo a trajetória dos países comunistas, qual é hoje o lugar do comunismo? E que utopias restam?

A concretização, não o comunismo mas a sua realização prática, demonstrou falhas muito grandes. Entre elas, a da hegemonia da direção sobre a classe operária. A destruição do envolvimento da base face a uns burocratas que, cada vez mais, se tornaram nos donos do mundo operário. Mas sempre haverá um grande valor, universal, que é o da solidariedade. Com os desfavorecidos, os explorados...

Foi isso que o levou a criar o «Nobel para Deficientes», e aí gastar os 800 mil euros do prémio? Como sobrevive, agora, esse projeto?

Isso partiu de uma coerência, um discurso, uma ética. Não é um método. Trata-se de agir e continuar a crer no valor deste gesto.

Nunca atravessou para o outro lado, o de fazer política. Mas não poupa críticas a Sílvio Berlusconi. Que responsabilidade atribui aos políticos, quanto à situação cultural, em Itália?

Berlusconi é uma personagem. Para já, entrou na política porque precisava de defender-se dos processos judiciais que tem por corrupção, burla... Chegou ao absurdo de alterar a Constituição italiana, diz descaradamente «preciso que aprovem esta lei». É um poder que usa métodos de gangster, sem possibilidade de debate. Há tantos problemas para resolver: as escolas, o trabalho, os jovens, a fome, a instabilidade económica. Mas, para ele, a coisa mais urgente é propor e fazer aprovar uma lei que o salve de um processo! Não é a situação nacional e internacional! A Terra está a deteriorar-se, existem os problemas do buraco de ozono, das estações climáticas que estão trocadas, o perigo de que tudo vá à merda, desculpe o termo. Não, o que o preocupa é uma lei que o salve de um processo, capisce? Tem que ser corrido do Parlamento. É um infame!

A influência de Berlusconi estende-se pela cultura de massas. E o que se passa com as massas?

Sim, existe uma população própria da cultura de massas, porque se contenta com o pouco espaço que a televisão lhe concede. Curva-se perante a situação provocada pela política de Berlusconi, as suas declarações, os insultos, a imposição de leis que são todas a favor dele. E a esquerda é, em grande parte, responsável por ter permitido que Berlusconi tomasse o poder. Não tanto pela sua política em geral, mas porque não fez um planeamento coordenado de pensamentos, de ações, não delineou uma estratégia. Permitiu-se que ele chegasse ao poder com um conflito de interesses enorme, macroscópico! Agora temos um presidente de Conselho que é patrão de seis televisões, de fábricas, de jornais, de empresas, de bancos, de seguradoras, de publicidade, de cinemas... É como as bonecas russas, abre-se uma e, lá dentro, há muitas mais! E estas são coisas que servem para fazer política! Como é que se enfrenta alguém que tem estes meios todos? Nós não cessamos de copiar a América. Mas, se vivesse na América, ele teria, pelo menos, mais 20 processos à conta disso. Berlusconi tem medo da praça pública, mas a esquerda também! Eu penso que é preciso realizar-se uma mudança viva, na forma de fazer política em Itália. É preciso que as pessoas não se contentem apenas em devolver a bola, como se tudo fosse um jogo de ténis.

Com tanta informação, face à situação, porque é que há tantos adormecidos?

Porque, de facto, a maioria dos cidadãos italianos estão desinformados. E não só eles como os cidadãos do mundo inteiro. Por exemplo, eu gostaria de saber qual é a percentagem de pessoas que, em Portugal, leem jornais. Estes é que dão informação, a TV é um meio de desinformação. Ainda por cima, em Itália, mas também aqui, em Portugal, já não existem centros coletivos da classe operária, que eram postos importantíssimos.

Quem os substitui hoje, os intelectuais?

Os intelectuais só podem agir, se houver um movimento de base, um grande esforço coletivo, que os intelectuais devem servir. O seu papel é fazer os impossíveis para informar, através de múltiplos canais: teatro, escrita, andar na praça, novos modos de expressão. Os tradicionais já não servem. Não se passa pela rádio, pela televisão, é difícil passar pelo cinema. Portanto, tem de se tentar a relação direta, incluindo até o computador, importante nesta situação. O absurdo vem daquilo que nós vivemos, a vivência do absurdo que se torna numa comunicação normal. Isto é a nossa vida! Não é uma peça, não se trata de palhaços. Nós é que somos os palhaços!

Dario Fo e Franca Rame, sua mulher e cúmplice durante cinco décadas

Dario Fo e Franca Rame, sua mulher e cúmplice durante cinco décadas

Numa Europa onde a taxa de abstenção eleitoral aumentou muito, as pessoas já não se importam com nada?

Primeiro, é a grande desilusão, porque se vai votar e a quantidade de idiotas é cada vez maior. Pessoas completamente desinformadas, que acreditam em coisas horríveis. O raciocínio desapareceu. E a desilusão é causada, principalmente, pela esquerda, que perde cada vez mais a oportunidade de se transformar em expressão e organização das lutas. Traiu muitas vezes.

Antes da inauguração da imensa exposição que é Bonecos com Raiva e Sentimento, ainda o encontrámos a retocar alguns dos quadros. O perfeccionismo é uma regra pessoal?

Não, eu não sou um perfeccionista. Sou outras coisas... Esta exposição é o resultado de uma pesquisa, feita com a preocupação de encontrar um discurso, uma linguagem. Houve um momento no meu trajeto em que deixei completamente de pintar. Entrei em crise, quis abandonar tudo, porque descobri as regras de funcionamento do mercado de arte, a especulação que existia sobre o trabalho dos projetos que executávamos, os jogos de poder. Percebi que não era trabalho para mim, não era capaz de o fazer. E comecei a trabalhar no teatro. E encontrei-a no Teatro Odeon, em Milão, em 1951 [Franca Rame, sua esposa]. Era uma menina, tinha 20 anos! Apaixonei-me, o teatro fascinou-me e assim somámos mais de 50 anos de atividade teatral. Um teatro em que, naturalmente, usei todos os meios à minha disposição. Eu já sabia contar histórias, sem me dar conta de que tinha interiorizado uma técnica, uma sabedoria. Depois, com Franca a meu lado, conheci a experiência de como usar a voz, fazer o recital e, sobretudo, aplicar tudo o que tinha aprendido naturalmente. Como escrever para teatro. Tinha 24 anos, quando entrei para o teatro. A minha escola foi essa. Aprendi teatro, fazendo.

Todo o teatro que escreveu e encenou sempre teve uma forte conotação política...

O nosso teatro, sim. Não tanto de partidos, mas de uma política de impacto social, de intervenção ao nível dos costumes, da moral, da cultura, da resistência. Abordámos temas como o problema da dignidade, da sobrevivência ou da dignidade do trabalho...

Assim como a condição feminina. Como atravessou a situação do rapto e violação de Franca, em 1973, por um grupo de simpatizantes fascistas?

Na altura, vivia-se um clima perigoso. Franca foi raptada e violada, eu estive na prisão, tivemos o nosso teatro destruído, fizeram-no saltar pelos ares com uma bomba. São tragédias. Todos os dias havia pessoas que eram aprisionadas, mortas, ameaças de bomba, massacres. Era uma vida em que não se sabia o que ia acontecer em cada noite. Sofremos agressões de todos os tipos. Era uma guerra. Dizemos que as coisas se repetem, de uma forma trágica ou cómica, mas é sempre diferente. O clima que se vivia nessa altura era de ódio, mas as pessoas reagiam. Hoje, a única esperança são os jovens, os operários, as pessoas que tomam consciência, a possibilidade de reestruturação de uma classe dirigente de esquerda. A que existe não pode apresentar-se na batalha, não tem o espírito do papel que deve desempenhar. Não há coragem suficiente e, sobretudo, não há ideias para transformar essa coragem em atos.

Essa é a razão para o crescimento da direita em toda a Europa?

Os acontecimentos históricos alteram-se. Vocês, portugueses, tiveram uma esquerda que fez coisas excelentes, que agarrou numa nação isolada, sem ligação nem comparação com a Europa, mais próxima de África do que da própria Europa, e fê-la avançar um grande passo. Isso vê-se. Estou certo de que, no vosso caso, este é um sopraviento, uma viragem política momentânea e que o poder vai mudar novamente. A grande questão é se esta esquerda se renovará.