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Pilar del Río: "Alabardas faz parte do universo saramaguiano em todo o seu esplendor"

Cultura

Alabardas - Porto Editora, 136 págs., €15,50 - O livro apresenta três capítulos, nove notas retiradas do Caderno de José Saramago (datadas entre 15 de agosto de 2009 e 22 de fevereiro de 2010), dez ilustrações de Günter Grass (Nobel da literatura em 1999), e dois posfácios impactantes: Um Livro Inacabado, uma Vontade Firme, da autoria do poeta espanhol e ensaísta Fernando Gómez Aguilera; e Também Eu Conheci Artur Paz Semedo, um relato-
-homenagem escrito pelo jornalista italiano Roberto Saviano

A 'presidenta' da Fundação José Saramago, viúva do escritor, fala à VISÃO sobre a "vertigem" de ler o romance inacabado, e último inédito, do prémio Nobel português.

Que razões fizeram Saramago escolher os versos de Auto da Exortação à Guerra, de Gil Vicente, para este Alabardas?

Desde que decidiu escrever este romance, ele pensava em utilizar este verso. Inicialmente, seria uma epígrafe, mas, como se vê nas notas, logo passou a ser o título. Que Gil Vicente esteja numa obra de José Saramago integra uma forma de este entender o trabalho que inclui o respeito por aqueles que fizeram grande a literatura em português. Os casos mais evidentes, ainda que haja numerosas referências em todos os seus livros, são Camões em Que Farei com Este Livro?; Pessoa em O Ano da Morte de Ricardo Reis; Almeida Garrett na epígrafe de Levantado do chão; e o Padre António Vieira em Viagem a Portugal, em cujo arranque é homenageado... Não é de estranhar que encerre a sua obra com Gil Vicente.

Como lê Alabardas e a sua importância na obra saramaguiana? Que impacto lhe causaram estes capítulos e o tema?

Não entendo Alabardas como uns capítulos soltos, mas como uma obra, porque estão lá a pulsação, os personagens, a trama, os andaimes - ou a alma - que sustêm o livro. E, de alguma forma, está presente a proposta de que cada leitor acabe a história à sua responsabilidade. O impacto, ainda que conhecesse o trabalho à medida que este ia crescendo, foi demolidor: senti vertigens porque sabia que, quando chegasse ao final, era verdadeiramente o fim. Vertigem pura. Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas faz parte do universo saramaguiano em todo o seu esplendor.

Revê-se na personagem de Felícia, mulher de fortes convições éticas (que, se bem entendi, diria a última frase do livro)?

Felícia é, no século XXI, Blimunda [heroína de Memorial do Convento]. É a mulher valente, ousada, que desencadeia a acção e mantêm a coerência. Provoca, a partir dos seus traços distintivos, mas é irmã da Maria Sara, de História do Cerco de Lisboa, das mulheres de A Jangada de Pedra, da Maria Madalena do Evangelho Segundo Jesus Cristo, da mulher do médico de Ensaio sobre a Cegueira, e das mulheres de Levantado do chão. Também aqui José Saramago foi igual a si mesmo. E ele não se baseava em pessoas concretas, simplesmente escrevia a partir da vida.

Conhecendo as circunstâncias difíceis da escrita de Alabardas, sentimo-nos gratos e comovidos por reencontrar o humor e a ironia do autor. É uma prova de força moral falar de violência sem ceder ao seu negrume?

Claro. José Saramago disse: "Tudo pode ser contado de outra maneira..." O seu estilo revela-se de forma rotunda, ele narra uma história, sem moralismos nem falsos didatismos, e expõe as limitações e as contradições dos seus protagonistas com o sentido de humor e a ironia não sarcástica que o caracterizam. É minucioso a descrever estados de ânimo e linhas de pensamento, que é o que o interessa sempre.

Paz Semedo transporta no nome as contradições e absurdos deste mundo. Podemos ler, neste funcionário, um entre tantos outros mas que coloca em causa a engrenagem, um alcance ideológico enraizado na militância de Saramago?

Todos transportamos as contradições da nossa civilização. Paz Semedo de uma forma mais evidente. Falamos de paz e preparamo-nos para a guerra: basta comparar os montantes investidos na defesa e os que vão para a educação e cultura em todos os países. Se estes números fossem ao contrário, quem sabe, a violência estaria reduzida a uma anedota. A militância de José Saramago era o humanismo, essa é uma evidência indiscutível. Na hora de votar, tinha o seu partido, é claro.

O ensaísta Fernando Gómez Aguillera refere que nunca saberemos como Saramago iria continuar as vinte e duas páginas feitas. Tem pistas ou suposições?

Sim, porque neste romance, como nos outros, Saramago dava-me conta, a cada dia, da evolução da história que tinha completa na sua cabeça. Durante um tempo tive uma espécie de nebulosa, não queria recordar, precisamente por causa dessa vertigem de que falei antes, mas, pouco a pouco, fui recuperando as conversas tidas ao cair da tarde, no jardim ou a ver o mar na casa de Lanzarote, onde continuam a flutuar as suas palavras. E sim, tenho [a continuação da] história, mas é melhor que nos fiquemos com o que que está escrito e ponto.

Que papel assumiu na edição de texto de Alabardas? Partiu de si a ideia das notas (a vermelho)?

A edição é coisa dos editores. O livro é de uma modernidade magnífica, é um objecto belíssimo, obra dos editores.

Pode partilhar alguma recordação ou história sobre estes dias em que José Saramago estava a escrever este novo livro? Posso dizer que começou a escrever estas páginas, ainda que logo as tenha reescrito, assim que terminou Caim. Antes até da apresentação deste romance em Portugal. Tinha tanta urgência de falar sobre o tema das armas, isto é, sobre a violência e a guerra, como antes sentiu a propósito das mistificações das religiões. No fundo, é do poder exercido sobre as consciências, baseado em preceitos e ameaças, de que aqui se fala, ou do poder que manda morrer ou matar por querelas que nunca são dos que matam ou morrem. Afinal, há que alimentar a indústria da guerra... Há que gerar conflitos e ardor guerreiro nas pessoas.

Saramago expressou o desejo de publicação deste livro incompleto?

Não, claro... Simplesmente, um dia, deixou de escrever e não se falou mais de trabalho. Creio que todos sabemos quando chega essa hora e, então, tudo é pacífico, natural.

Lembra, no editorial da revista Blimunda, que "talvez conduzido pela urgência de não morrer sem dizer tudo, [Saramago] pôs-se a escrever, quando faltavam uns meses para a sua morte". Alabardas é um testamento literário ou, antes, uma advertência urgente - e premonitória, dada a atualidade informativa na Síria, Iraque, Ucrânia?

É a história que José Saramago queria contar desde que leu (eu creio que ouviu contar essa história mas ele falava sobre a ter lido) sobre a bomba sabotada, que tinha lá dentro um papel escrito em português. [Alabardas] não é um testamento. Mas ele sentia a necessidade de escrever directamente contra as guerras, contra o vespeiro que é a preparação dessa monstruosidade. Já em Memorial, quando aparece Baltasar, ele ironiza sobre esta perversão, mas [desta vez] quis ser mais explícito, narrando de dentro do vespeiro, se assim posso dizer. E sim, queria dizer tudo, Saramago tinha urgências morais que expressava literariamente.

O posfácio de Roberto Saviano incluído na edição portuguesa é surpreendente. Que circunstâncias levaram a esta escolha?

Roberto Saviano narra a violência como poucos, ele é vítima de violência. E é uma pessoa que José Saramago admirava - disse-o muitas vezes e deixou-o escrito.

O mesmo Saviano sintetiza o apelo atual e universalista de Saramago: "A história de Artur Paz Semedo surge como uma revelação para o leitor mais distraído, a leitora mais atenta, o estudioso mais rigoroso, o filólogo mais cínico." Esta será a força para o perdurar da obra de Saramago, agora que se esvaziou a 'arca' de inéditos?

É uma forma de entender que o vigor narrativo dos mestres não se perde. Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas tem a beleza do horizonte. E quando observamos o horizonte, a porção abarcada pelo olhar, somos capazes de refletir e de sentir. A linha do horizonte pode ser estimulante, e este romance também. É um bom final de obra de um homem que contribuiu para o expandir do seu tempo.

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