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José Eduardo Agualusa: 'O sonho merece mais atenção'

Cultura

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Tem um novo livro, A Vida no Céu, lançado na sua nova casa editorial: uma parábola ecológica, escrita para os seus dois filhos, atravessada pelas habituais inquietações sobre a realidade

E depois do dilúvio, os sobreviventes ascendem às nuvens, vivendo em cidades-dirigíveis e balões-aldeias, os ricos e poderosos nas primeiras, todos os outros nos segundos, como, afinal, acontece em cá de baixo. Videntes apaixonadas, aventureiros cegos, meninas que parecem falar com pássaros, hackers que dão pelo nome de Brigadas de Assange, piratas que suspiram por uma última Ilha Verde, pais que recordam os cheiros do capim molhado - todos eles sem chão para regressar. Ou talvez não. Eis o plano de voo do novo romance do escritor angolano, A Vida no Céu (Quetzal, 192 págs., €16,60), um livro para jovens leitores onde os adultos encontram brisas e tempestades para voarem. A ideia, sonhou-a José Eduardo Agualusa que, um dia, acordou com a primeira frase: "Depois que o mundo acabou fomos para o céu."

As inquietações que fazem dele uma voz crítica do regime político de Angola sopram nas entrelinhas - Luanda é, aqui, uma aldeia-biblioteca...

Este romance é uma homenagem ao Brasil, terra prometida?

Este livro não tem nada a ver com os anteriores. Escrevi-o para os meus filhos [que vivem em Luanda], e com as sugestões deles. É um exercício de ficção pura, e a ideia é escrever mais dois volumes, porque há histórias para continuar. Diverti-me imenso: é toda a construção de um mundo que está aqui. A referência ao Brasil surgiu por acaso: veio-me à cabeça a canção de Caetano [Um Índio, reproduzida na epígrafe]. E percebi que tinha estado o tempo todo a escrever sobre isso: aquele índio que chega para dizer coisas que as pessoas já sabem, mas que não respeitam. A Vida no Céu é uma parábola ecológica.

É a primeira vez que escreve um livro assumidamente para jovens.

Sim. E não há muitos escritores de língua portuguesa a fazerem isso. O que é estranho se pensarmos que é um público importante, em crescimento, que lê bastante. Escrevi Vida no Céu como escrevi os outros livros: com o mesmo rigor e preocupação com a língua. As crianças são muito inteligentes, não dominam todos os conceitos mas são atentos. Este é um livro que eu gostaria de ter lido quando tinha 16 anos: mundo flutuante, dirigíveis! Até acho estranho nunca ninguém ter tido esta ideia. Há imensos livros sobre o fim do mundo, mas as pessoas vão viver para o mar, ou para debaixo da terra.

Os seus últimos romances, Barroco Tropical e Teoria Geral do Esquecimento, eram distopias. Aqui preferiu a utopia?

Não sei se é uma utopia, ou se continua a ser uma distopia. É um livro otimista embora parta de um evento desastroso [o Dilúvio, provocado pelos humanos]. Mas as distopias chamam a atenção para um determinado problema. É o que este livro faz.

Há referências tecnológicas curiosas: os hackers Brigadas de Assange, a Skypedia, o Facebook que continua funcionar no céu...

São brincadeiras. Os meninos, hoje, estão excessivamente, permanentemente, ligados. É perturbador. O que é extraordinário é pensar, hoje, como é que escrevi o primeiro livro... Para resolver qualquer dúvida, como por exemplo "quantas balas leva uma carabina?", ligava para algum amigo caçador, ou ficava uma tarde inteira na Biblioteca Nacional a investigar. Hoje, vamos à internet e em cinco minutos temos as respostas. A internet é o Aleph do Jorge Luis Borges - onde tudo existe. "Ah!, a internet tem coisas más", dizem. Tudo tem coisas más. "Ah!, tem informações erradas". As bibliotecas estão cheias de informações erradas, os melhores livros estão cheios de coisas erradas.

Faz, aqui, várias descrições de árvores. Foi buscar a bagagem à Agronomia?

É verdade, sempre gostei de árvores, de pássaros, de bichos. Pode ser que tenha vindo das aulas de silvicultura. Mas não aprendi lá muita coisa...

Dedica o livro "a jovens e outros sonhadores". Artistas, políticos e até ecologistas já não parecem sonhar assim tanto... Quem são, hoje, os sonhadores?

Talvez seja necessário retomar o sonho. Há muitos anos que tenho uma ideia para um livro sobre sonhos. Há uns dias, li uma entrevista com um meganeurologista brasileiro, professor na universidade em Natal, e fiquei muito impressionado porque ele falava na necessidade de recuperar os sonhos. Durante milénios, estes foram fundamentais para a sobrevivência, os homens levavam o sonho muito a sério. Ele dizia que, se um caçador sonhasse que naquele lago onde ele ia beber estava um tigre, ia tomar mais cuidado. Muito recentemente na História da Humanidade, o sonho deixou de ter importância, as pessoas substituíram o sonho por sonhos já construídos, como a televisão - adormecem a ver tv, sonham com as coisas que veem lá... O sonho merece mais atenção.

José Eduardo Agualusa, escritor, 52 anos, nasceu no Huambo, Angola. Em Lisboa, estudou Agronomia e Silvicultura, e foi jornalista do diário Público. Em 1989, lança o romance, A Conjura, que lhe valeu o primeiro de vários prémios literários, incluindo o Independent de Ficção Estrangeira 2007 atribuído a O Vendedor de Passados. Tem cerca de duas dezenas de livros publicados, entre romances, novelas, contos, crónicas, poesia e livros infantis, está traduzido em mais de 20 idiomas, e divide a sua vida entre Rio de Janeiro, Lisboa e Luanda.

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Edição número 1068 de 13 de Junho de 2013