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JR, um 'ativista urbano' na primeira pessoa

Cultura

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Leia a entrevista completa ao autor do filme Women Are Heroes, que está em exibição em Portugal e integrou a seleção oficial do Festival de Cannes 2010. VEJA TAMBÉM O TRAILER DO FILME

Está em exibição em Portugal Women Are Heroes, filme sobre as batalhas enfrentadas pelas mulheres em zonas problemáticas do mundo, que integrou a seleção oficial do Festival de Cannes 2010. Nele, podemos conhecer as grandes fotografias a preto e branco que o artista urbano francês, de 29 anos, colocou em favelas brasileiras ou aldeias africanas, assim como os processos de trabalho e as experiências humanas que os rodearam. Uma experiência de grande escala que, diz o próprio JR, numa entrevista por e-mail à VISÃO, teve impacto difícil de quantificar. Talvez o mesmo daquele bater de asas que pode provocar um tufão?

Em Women Are Heroes, vemos a indiana Shanti Mehrar contar como teve de defender-se de uma violação dos vizinhos que acreditavam que "não fazia mal" por ela ter-se casado com um homem de casta diferente; ouvimos a brasileira Rosiete Marinho dizer que "é difícil a uma mãe ir a um lixão catar os restos do seu filho"; observamos a raiva da queniana Catherine Mukulu a afirmar: "Tenho potencial enquanto mulher mas o mundo não vê." Como ganhou a confiança destas mulheres que o deixaram contar as histórias delas?

Como "ativista urbano", tento criar uma arte infiltrada que é exposta nas paredes. Não sou um mercenário. O meu trabalho fala sobre as pessoas, são elas e o seu quotidiano o que me interessa. Escuto as suas reações e adapto-me. Não há esses momentos em que tento convencer alguém, tudo flui num diálogo constante. Estas mulheres confiaram em mim e no projeto porque este não envolve nenhuma marca nem governo, e elas percebem que é uma grande forma de partilhar a sua história com o mundo.

Celebrar o valor do indivíduo é uma mensagem forte nas suas fotografias. Esse poder individual tem imapcto no combate aos problemas sociais, às crises, à globalização?

O poder de um indivíduo através da força da imagem é definitivamente uma grande combinação! Quando aumentamos o rosto de alguém numa parede, não se trata de publicidade mas de uma mensagem pessoal. No projeto Women Are Heroes, as mulheres usaram o poder da imagem de diferentes maneiras, dependendo do contexto em que viviam. Para mim, foi muito interessante ler as entrevistas que elas deram a medias em todo o mundo, perceber como interpretavam o projeto e espalhavam a sua própria mensagem.

Como é que um artista urbano francês cool acaba a fazer uma fotografia global, política e civicamente engajada como a sua?

Tudo começou quando encontrei uma máquina fotográfica no metro, em 1999. Com esta câmara na mão, comecei a tirar fotografias ao meio que me rodeava: os graffitis e o meu próprio trabalho espalhado nas ruas. Deste tipo de exibição pública, nasceu o meu primeiro grande projeto, Portrait of a Generation [Retrato de uma geração], em que apliquei os rostos de alguns amigos meus dos subúrbios - mais genericamente referidos como guetos nos bairros mais trendy de Paris. Com esse projeto criei um confronto entre os rostos destes jovens dos guetos e o ambiente burguês de Paris. Portanto, suponho que foi com Portrait of a Generation que o meu trabalho começou a bater à porta dos tópicos políticos e sociais. Depois, continuei com o projeto Face 2 Face [Cara a Cara, onde colou imagens de habitantes israelitas e palestinianos no muro que separa ambos os territórios] no Médio Oriente, e Women Are Heroes.

Como, e porquê, decidiu fazer, além das fotografias, este documentário sobre as mulheres?

Para Women Are Heroes, decidi realizar um filme para revelar as diferentes camadas do projeto, a razão porque as mulheres participavam e de que forma o projeto tinha impacto nas suas vidas... Um filme cria imensas camadas em torno da imagem fixa e ajuda as pessoas a compreenderem as várias dimensões do projeto.

É um triunfo de produção terem filmado em todos estes diferentes países e nesta grande escala (um comboio inteiro forrado de fotografias, os tetos de uma aldeia cobertos com as imagens de olhos fotografados a preto e branco...). Como é que esta empreitada foi feita? Que apoios ou patrocínios teve?

Ótima questão. Eu produzi tudo isto sozinho. Primeiro, é importante saber que não aceito nenhum tipo de patrocínio. É extremamente importante para mim ter o controlo total sobre o meu trabalho e a minha reputação. Porque assim que aceitamos um patrocínio, já não somos só aquela pessoa que tem algo a dizer. Portanto, como é que eu financio os meus próprios projetos? Com o meu trabalho. De maneira a pagar todos os passos necessários para produzir um projeto como Women Are Heroes, vendo as minhas fotografias e trabalhos artísticos e uso esse dinheiro para criar novos projetos.

Numa cena do filme, creio que no Quénia, vêem-se os homens da aldeia a serem convencidos a permitirem a colocação das fotografias das mulheres nos telhados: eles acabam por aceitar, argumentando que da próxima vez o projeto devia ser sobre os homens. Está a considerar fazer esse projeto? E costuma manter o contacto com as pessoas que fotografou?

O projeto chama-se Women Are Heroes mas isso não quer dizer que seja apenas sobre as mulheres, mas que estas são os portais de entrada na comunidade. No entanto, costumo regressar, sempre que posso, para continuar o trabalho. Para eles, foi útil cobrir as suas casas com as minhas fotografias. Protegeu-os da chuva. Todos os anos, desde que começámos, regressamos aí e cobrimos mais dois mil metros quadrados de telhado.

Alguma vez teve medo ou foi ameaçado durante este projeto? Ou durante a criação de outros projetos, como por exemplo o Face 2 Face, junto ao muro da Cisjordânia?

Medo? Não. Mas há sempre riscos que é necessário correr no meu trabalho; é simplesmente algo que se tornou um elemento do processo. Com o Face 2 Face em Israel e na Palestina, eu estava a trabalhar no muro de separação, que é obviamente um lugar controverso... Estaria a enganar-me a mim mesmo se não esperasse, a qualquer momento, que aparecesse alguém para me impedir. Fui preso en Hebron e recebi uma interdição territorial de duas semanas que não respeitei... Há um belo documentário sobre o projeto chamado FACES.

Que história o tocou mais?

A de Rosiete, personagem principal de Women Are Heroes, que foi uma das mulheres mais envolvidas no sucesso do projeto nas favelas. Ela cozinhava todos os dias para nós, e quando fizemos a inauguração da exposição das fotografias, em Paris, ela veio e cozinhou para os visitantes da exposição! A viagem dela a Paris transformou-a, assim como nós ficámos transformados pela sua favela.

Passaram quatro anos desde que realizou o documentário. Desde então, alguma coisa mudou realmente na vida destas comunidades e destas mulheres?

Sim. Para continuar com o exemplo do Brasil, a comunidade passou por uma evolução tremenda depois de termos realizado o projeto. É claro que a razão principal para isso tem a ver com os Jogos Olímpicos e todas mudanças da cidade, mas agora a favela está mais pacificada e existe um novo plano de reconstrução. O que nem sempre é um bom sinal para a população, já que as pessoas têm de abandonar os seus espaços porque não têm dinheiro para lá viver. Muitos dos locais onde filmámos mudaram, mas o que mudou foi, sobretudo, as pessoas sentirem que ganharam poder e usam a sua voz para ter um impacto nos media.

Que poder tem realmente a militância cívica através da arte? E quais são os seus limites e defeitos?

Ser um artista é uma afirmação mas também implica trabalhar em total liberdade. Na minha opinião, eu não faço arte política mas é um debate interessante pensar que tudo o que se faz na rua pode tornar-se político... O que quero dizer é que não tenho nenhuma mensagem política, mas as pessoas que eu fotografo têm, e asseguram-se de que a partilham. Eu não sou porta-voz, apenas difundo mais a sua mensagem. A arte tem um poder forte! E um artista tem o direito de falhar no que faz, por isso tem de arriscar!

Já foi abordado por forças políticas no sentido de usar o seu trabalho ao serviço de ideologia?

Recebemos correio no estúdio, praticamente todos os dias, de pessoas com propostas para campanhas humanitárias, projetos, organizações, movimentos políticos. Mas, por muito que eu gostasse de levar progresso para o mundo, como qualquer outra pessoa, tenho de escolher as minhas batalhas.

Vi o seu trabalho mais recente, Wrinles of the city, os grandes retratos de idosos nas paredes de Cuba. O que o interessou nestas fotografias?

Esse é um outro projeto que iniciei há quatro anos. Wrinkes of the City [Rugas da Cidade] é um trabalho à escala global, para ser apresentado em várias cidades à volta do mundo onde essas rugas, tanto humanas como arquiteturais, podem ser encontradas. Em Cuba, o que me agradou é que eles não têm qualquer publicidade, e os únicos retratos que existem são políticos (Che, Fidel ou Raul Castro...). Portanto, pela primeira vez na história, retratos pessoais gigantescos estão expostos nas velhas paredes da cidade. Colaborei com Jose Parla, um artista cubano radicado em Nova Iorque. Sinto-me muito orgulhoso da nossa colaboração.

No seu site, postou igualmente uma divertida fotografia sua na Coreia do Norte, acenando atrás de uma parada de soldados. Tem algum projeto planeado aí

Quem me dera! O contexto é demasiado complicado, mas fiz algumas fotografias lá, que podem ser vistas no meu website (http://jr-art.net ).

A arte urbana está ser crescentemente absorvida pelo mundo da arte. Qual é a sua opinião sobre este transplante para o circuito das galerias, com públicos mais privilegiados, diferentes da realidade social das ruas?

Penso que as galerias ou os museus ajudam a mostrar uma nova leitura do trabalho, tal como este filme faz. No meu caso, uso as exposições dentro de portas para explicar os projetos dos diferentes continentes, com vídeos e instalações. Isso é muito importante para mim. Alguns artistas estão a fazer, nas galerias, exatamente a mesma coisa que fazem nas ruas, mas não me parece que isso tenha o mesmo impacto.

Em relação ao trabalho, por exemplo, do veterano fotojornalista James Nachtwey surgem questões acerca dos objetivos e da legitimidade moral de publicar um livro de arte com imagens explícitas das mortes e tragédias (em Inferno). O JR faz exposições e publicou também um belo e luxuoso livro de fotografias sobre Women Are Heroes. Como é que vive e equilibra estas duas realidades diferentes, e incompatíveis? A dignidade dos fotografados e o impacto da mensagem não perdem algo?

O meu trabalho é efémero e a documentação é muito importante, já que é o único vestígio que fica. Eu publiquei um livro para o público mas também fiz uma edição gratuita para todos os que participaram no projeto, ou, por vezes, para a comunidade inteira. É feito sempre no idioma local e é sempre importante para as pessoas que participaram, pois guardam assim um rasto físico e simbólico do projeto. Adoro, no filme, a cena em que as mulheres assinam os livros para o público, é um momento tão forte para elas.

Recebeu o prémio TED 2011 devido ao projeto Inside Out. De que se trata?

A 2 de Março de 2011, nas conferências TED, em Long Beach, Califórnia, lancei a ideia da criação de um projeto de arte global, o Inside Out Project (IOP). O conceito é dar a toda a gente a oportunidade de partilhar com o mundo o seu retrato e o testemunho sobre a causa que defendem. O IOP fornece a pessoas e grupos de todo o mundo um veículo para fazerem uma declaração. Qualquer um pode participar, e é desafiado a usar retratos fotográficos para partilhar histórias não contadas e imagens das pessoas nas suas comunidades. Estas ações são documentadas, arquivadas e mostradas online no site www.insideoutproject.net . Desde essa data, já foram enviadas mais de 100 mil propostas, vindas de mais de 108 países. Uma parte do projeto é trazer as impressoras e o projeto para a rua, permitindo ao público participar espontaneamente e sem custos. Milhares de retratos foram impressos em Photoboots [cabines fotográficas] localizadas em vários pontos do mundo...