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Sonhar alto e concretizar em tempo de crise? Afinal, parece ser possível. E sem défices. Pelo menos, em Vila Nova da Barquinha, onde se inaugurou sexta-feira o Parque de Escultura Contemporânea, projeto ambicioso, com obras em grande formato, de 11 artistas nacionais de primeira água. Um lugar único, nos cenários da arte pública contemporânea. VEJA AS FOTOS

Alberto Carneiro
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Alberto Carneiro

José Pedro Croft
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José Pedro Croft

Cristina Ataíde
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Cristina Ataíde

Xana
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Xana

Zulmiro de Carvalho
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Zulmiro de Carvalho

Angela Ferreira
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Angela Ferreira

Joana Vasconcelos
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Joana Vasconcelos

Fernanda Fragateiro
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Fernanda Fragateiro

Pedro Cabrita Reis
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Pedro Cabrita Reis

Carlos Nogueira
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Carlos Nogueira

Rui Chafes
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Rui Chafes

Pedro Cabrita Reis passeia-se com a farda tradicional, fato elegante, suspensórios e charuto, mas com novo acessório na mão: uma caipirinha, para afugentar a canícula.

Joana Vasconcelos afadiga-se, com a pele a avermelhar, escondida debaixo de um chapéu de palha preto. De panamá na cabeça, um destemido Xana faz acertos de última hora na Casa do Céu, subindo e descendo os degraus da construção erguida com caixas plásticas industriais.

O veterano Alberto Carneiro, por entre os troncos de granito e bronze da sua floresta artificial, olha o céu. Azul-metálico inclemente. O termómetro acusa 38 graus, o Tejo ali ao lado mostra-se surdo a súplicas de frescura. Mas a comitiva segue, suando, à descoberta das 11 esculturas arrumadas no prado.

Aqui, pedra e aço, ali, ferro e metal e plástico, e ainda o invencível betão. Tudo encandeia, nesta hora vertical do meio do dia... Mas estamos perante um milagre refrescante: o Parque de Escultura Contemporânea de Vila Nova da Barquinha, que reúne obras dos melhores escultores portugueses vivos, abre as portas neste verão quente da crise, dos défices, da desesperança.

Miragem exuberante, num deserto cultural? Esta iniciativa, instalada em sete hectares do Barquinha Parque, é comissariada por João Pinharanda, com a Fundação EDP como parceira.

A ambição e as valências do projeto são, diz Pinharanda, "garantias de que isto não seja apenas umas esculturas [espalhadas] num parque, e que acabem aqui". "Pensei-o como um percurso histórico, e não como um manifesto.

Quis fazer uma espécie de museu ao ar livre, com um percurso dos anos 60 até à atualidade." Esta galeria fora de portas integra o chamado Mercado das Artes, projeto de €2,2 milhões (cofinanciados pelos fundos comunitários a 80% através do Quadro de Referência Estratégico Nacional), cujo plano é transformar a zona ribeirinha do município num polo cultural, juntando ao parque uma galeria de exposições, loja de merchandising, oficinas formativas e residências de criação artística. É a "tematização de uma vila em torno das artes", descreve o presidente da Câmara, Miguel Pombeiro, de quem partiu a iniciativa. Tudo isto a 127 quilómetros de Lisboa, num dos 21 municípios de Santarém, onde vivem 7 322 barquinhenses (segundo o último Censo). Cerca de 50 quilómetros de território encavalitado em torno do Castelo de Almourol. Al-morolan, chamavam-lhe os muçulmanos que por lá andaram, no século XIII.

"Pedra alta". Estas pedras altas respiram bem, aqui.

Não intimidam. Entre os escultores, há quem siga o léxico próprio e quem assuma um diálogo lúdico com o espaço e o lazer da população. Ângela Ferreira, 54 anos (que apresentou Maison Tropicale, na Bienal de Veneza 2007), baloiça no seu Pivô de Rega Metálico: um sistema de rega verdadeiro, no qual três baloiços foram posicionados no lugar de onde caía a água. "Sempre me interessaram objetos do quotidiano que são trazidos, e reinterpretados, para o domínio do estético e do conceptual", sublinha.

Cristina Ataíde, 62 anos, trabalhou um instrumento das artes piscatórias, a merujona. "Criei uma peça para interagir com o público: para que este possa entrar, circular lá dentro, habitar, sentir-se protegido", descreve. Não é difícil imaginar crianças a subirem por ali, à maneira de um parque infantil. Fernanda Fragateiro, 49 anos, Prémio Tabaqueira Arte Pública 2001, abre também a obra ao uso: em Concrete Poem (título que brinca com a tradução de cimento para inglês), nas vigas geométricas em betão branco, que marcam "linhas de luz no espaço", as pessoas podem deitar-se, sentar-se, observar. Uma "comunidade temporária ". "É muito bonito de ver quando um bando de crianças, quase bailarinos, invade a peça. A escultura é quase um projeto performativo que precisa das pessoas para ser ativado", descreve. O calor vibra no verde intenso. Há quem se abrigue dentro das estruturas inspiradas nos caramanchões e, claro, em Versalhes de Joana Vasconcelos, 40 anos. Estes Trianons ganharam fitas mosquiteiras, "conhecidas dos nossos talhos" lembra, sem complexos, a artista. As tradições são o seu léxico (seria a única a apontar entusiasticamente um cesto da Festa dos Tabuleiros, de Tomar, minutos depois, numa parede de restaurante). O labirinto circular branco transparente esconde uma abertura no teto e "está relacionado com o divino e a poesia"; o segundo Trianon, colorido, camufla uma ligação ao curso de água próximo, e evoca a terra.

"Tenho um especial carinho por estas peças: foram as primeiras que expus, há 17 anos, na exposição Mais Tempo, Menos História, no jardim de Serralves. São, no fundo, a minha primeira instalação de arte pública, e é um statement ficar assim associada a este parque, o primeiro grande projeto do género que há no País."

Arte e política

Pedro Cabrita Reis, 56 anos, um dos artistas portugueses mais internacionais (teve quatro obras compradas pela Tate Modern em fevereiro), desfralda bandeiras políticas aos pés do seu Castelo, torre em esteios de granito.

Sobre o Castelo de Almourol: "Mais um castelo dessa eminência parda da nossa história que foi Oliveira Salazar, reconstruído como boa parte do património português: com argamassa, muita ideologia e bastante pancadaria." Usa o canavial próximo para sublinhar "a luta da prevalência do humano sobre a natureza, do ponto de vista ideológico e cultural" que tanto lhe interessa.

Recorda que o seu trabalho está "ligado a um pensamento sobre a atividade primordial humana que é a construção".

E relaciona esta utilização dos esteios, objetos feitos para levantar as vinhas, com a evocação de um mundo agrícola e artesanal que vai desaparecendo. É outro tipo de desaparecimento, aquele que ocupa Rui Chafes, 46 anos. Contramundo, casulo em ferro pintado de negro, larva entre o nascimento e a morte, "figura misantrópica que se esconde do mundo e se recolhe em si mesma", descreve foi colocado num recanto atrás de árvores, "para ser descoberto".

"Quando as peças são demasiado óbvias tornam-se ou más ou banais, sem quaisquer leituras além da primeira", defende. No futuro, espera que a obra seja envolvida pelo canavial. Um segundo desaparecimento intencional. A peça será vista por uns, desapercebida por outros é assim que deve ser, defende.

"O espaço público é dos mais difíceis e delicados que existem. A começar pelo facto de que a arte pública é posta num sítio onde ninguém a pediu, ninguém a quis", refere Chafes. E reflete: "Infelizmente, o que vejo mais são obras de arte pública que são demasiado óbvias, uns sinais coloridos na paisagem que não têm qualquer investimento espiritual. São mais ideias engraçadas, design e decoração do espaço urbano, do que arte. Fica muito difícil criar a tal desaceleração, a capacidade de um objeto artístico criar sentidos, desestabilizar a própria natureza do espaço e da pessoa." João Pinharanda sublinha que "não é todos os dias que aparece alguém a dizer que tem hipótese de fazer um parque com onze esculturas". Mas lembra o caso do "pioneiro" Alberto Carneiro. "Enquanto estiver aqui, sou matéria-prima para vós", diz o próprio Alberto Carneiro, 75 anos, debaixo do sol ardente. Sobre a Floresta é das primeiras obras encontradas, ao entrar no Parque. Um bosque num círculo onde estão inscritos os pontos cardeais e os elementos primordiais (água, fogo...), culminando num emaranhado de fios que remete para as paisagens familiares do Minho onde reside.

"Eu trabalho sempre com o espaço. A primeira motivação é a circunstância, o lugar onde a obra vai viver, os espaços de sociabilidade, como lhes chamo", diz.

Soma quase duas centenas de exposições feitas, é um ícone da land art, foi prémio Tabaqueira de Arte Pública 2004 (entre outras distinções), e é o responsável pelo Museu Internacional de Escultura Contemporânea (MIEC) ao Ar Livre de Santo Tirso, criado com a organização do Simpósio Internacional de Escultura: um projeto para vinte anos, que, desde 1992, e de dois em dois anos, tem cinco escultores convidados a criar obras de arte para o concelho. No fim, serão 56 esculturas ao todo. Públicas.

O decano diz que, em termos de arte pública, tem havido projetos que valem a pena e outros... que não. "Há uma ignorância subjacente que não favorece muito, a começar por presidentes e funcionários da cultura das câmaras. Tudo é feito no sentido de teatro: tudo o que não rende dinheiro ou votos é deixado cair." E há a questão da arte contemporânea... nem sempre compreendida. "Agora, as pessoas defendem as obras de Santo Tirso, porque estão ali, há um bairrismo. Mas lembro-me de uma obra de Cabrita Reis, uma casinha de tijolo, ser agredida: as pessoas diziam que aquilo não era arte", conta Alberto Carneiro.

Vários dos escultores presentes no Parque da Barquinha têm também obras em Santo Tirso. É o caso de Chafes, Croft, Fragateiro, Cabrita Reis, Ângela Ferreira. E também o de Zulmiro de Carvalho, 72 anos, que, no Parque da Barquinha, olhou em volta para criar a Linha de Terra e do Rio, uma espécie de T gigante e arquitetural, em aço inox polido e escovado. Diferente da intervenção Casa Quadrada com Árvore Dentro de Carlos Nogueira, 65 anos. E distinta também dos totens em aço polido de José Pedro Croft, 55 anos: espelhos de seis metros que se relacionam com cinco choupos próximos (cuja escala mudará com a passagem do tempo), marcando o território, exigindo uma relação corporal, deixando espaço a uma peça imaginária que completa a obra.

"Pode ser uma moldura transparente, um elemento enterrado..." O plano lúdico não é o da sua obra. Um eco aparentemente encontrado nas obras de Xana, 52 anos. Aparências...

O escultor criou uma "torre de babel" plastificada, um "abrigo" contra as águas invasoras da zona. Uma obra que evoca igualmente os conceitos "de fuga e de um caminho para o paraíso".

A arte pública salvar-nos-á?

Rui Chafes defende que um projeto como o Parque, iniciado antes do drama dos défices, deixa claro que "as coisas são possíveis, que as pessoas não estão mortas". Mas deixa um alerta, também: "A arte pública é um risco". "Quando o público vai a uma galeria sabe que vai ver esculturas. Quando entra num parque, não. O contrato entre o público e o objeto estético é, aí, muito diferente", aponta Ângela Ferreira.

Croft declara: "Eu não trabalho para a eternidade." A manutenção é outra questão pertinente: quem não conhece a obra She Changes, a "Anémona" da rotunda de Matosinhos, cujas redes já tiveram de ser substituídas duas vezes pela artista? "Há, em Portugal, edifícios extraordinários nos lugares mais esconsos. As coisas funcionam, por mais aventureiras e estranhas que sejam em termos de proposta formal. A Barquinha é uma dádiva incrível. Mas tem de haver investimento... Este parque não pode estar sem guarda à noite. É fácil a dois miúdos, com cerveja a mais e uma lata de graffitis, tratarem da saúde a uma peça", exemplifica Ângela Ferreira. O civismo, aponta Cristina Ataíde, é uma aprendizagem necessária à relação com a arte pública. "Quando veem uma obra de arte, as pessoas têm emoções que as levam para outras realidades. Também pelo momento atual [crise], o desafio da arte pública é lúdico: é importante virem para aqui distrair-se, ler, refletir..." Alberto Carneiro vê a arte pública como uma "oportunidade de se fazer algo com sentido, que confronta as pessoas." Do civismo ao gesto político, há um pequeno passo? Xana tem um caso exemplar: a comoção causada pela sua instalação, Ponte de África, no âmbito da iniciativa Allgarve, em 2008; a polícia tentou impedi-lo de colocar os muros de baldes de plástico na praia. Há "interesses instalados", o receio do desconhecido...

O escultor aponta que as encomendas de arte pública estão, muitas vezes, dentro das impetuosidades eleitorais. "Todos os políticos têm intenções." Quantas rotundas ornamentadas ou peças sem critério surgiram assim? Em 2007, num colóquio sobre arte pública, os comissários João Fernandes e o próprio Pinharanda, concluíram que havia "coisas muito más pelo país fora". Mas Parque da Barquinha, acreditam os envolvidos, não é um desses casos. Pedro Cabrita Reis dirá, em jeito de agradecimento provocatório, ao presidente da câmara da Barquinha: "Caso ele perca ou ganhe as eleições, é irrelevante. O que ele tinha de fazer já fez." A obra está aberta todos os dias, 24 horas. É só juntar água e ir.