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valter hugo mãe: "o amor é para os heróis"

Cultura

Continua a escrever com minúsculas, mas o seu universo expandiu-se para além de rótulos e tiques, prémios e poemas. Ao quarto romance, o escritor, 39 anos, faz a viagem mais negra e pessoal da sua carreira, com fantasmas: o da velhice e o do pai

* No final desta página, saiba mais sobre estas fotografias

Sempre soube escutar os sentimentos. Mas valter hugo mãe desceu, agora, a outras profundezas. O seu quarto romance, a máquina de fazer espanhóis (Alfaguara), que vai amanhã, sexta-feira, dia 22, para as livrarias, é uma surpresa para quem esperava apenas humor ácido deste escritor (e também artista plástico, editor, cantor e compositor da banda Governo, que acaba de lançar o disco Propaganda Sentimental). Porque é um livro mais dramático, porque é uma homenagem ao seu pai, falecido há dez anos no abraço apertado de um cancro, porque é um exercício de enorme liberdade criativa. Lá dentro, cabe fado, futebol e Fátima, mas não só. Através do definhamento de António Jorge da Silva, um viúvo de 84 anos, enfiado num lar, laminam-se temas fracturantes: a velhice, a morte, o amar demais, o salazarismo visto do presente, as santinhas de pau oco. Há ainda espaço para cúmplices - figuras reais (como o conservador do Museu de Arte Antiga Anísio Franco), polícias ficcionais (Jaime Ramos e Isaltino de Jesus, 'roubados' a outro escritor, Francisco José Viegas), e gente escrita por Fernando Pessoa.

O livro era para se chamar O fascismo dos homens bons. Mas, diz valter, "assustei-me com o possibilidade de, como aconteceu n'o apocalise dos trabalhadores, ser visto como algo profundamente politizado. Acho que os meus livros acabam por ser acerca das pessoas, aquém ou além dos partidos e governos". Sobrou-lhe a ideia da máquina - feita de corpo, sociedade, medos - e um título tirado de um poema do seu livro Pornografia erudita [Cosmorama, 2007], onde diz que queremos ser portugueses nem que seja por casmurrice. "Cada vez me dá mais gozo fazer com que os livros sejam úteis, que não se esgotem, que estejam para além de serem um entretenimento. Que sejam um percurso com o qual eu aprenda e me aproxime das pessoas e vice-versa, e, de vez em quando, que façam justiça a alguém." Que saudades que já tínhamos dele.

A velhice, tema deste novo romance, é a solidão de nos perdermos a nós?

É o sentirmo-nos já distantes de nós mesmos, como se inevitavelmente não nos pudéssemos apossar do que somos. A aventura deste senhor Silva, que é mais acerca da aventura da idade do que da identidade, passa por essa revolta: não poder exercer a sua vida com a capacidade que até aí exerceu. É como se o momento fracturante da perda da mulher fosse a ignição para que toda uma decadência adviesse. Mas o que faz com que essa personagem seja, em certa medida, um herói, é a sua resistência. Visto de fora, o desaparecimento por velhice não é dramático. "Então, que idade tinha? Ah, 92 anos. Boa, que sorte, viveu até aí. Já estava no seu tempo." Visto por dentro, há uma magnitude que não permite aceitar a razoabilidade das leis da natureza. Há idosos que definham depois de se reformar, outros depois de tratarem de um filho ou neto, ou de perderem o companheiro ... É como se a vida deles se justificasse através daquela relação. Lembro-me sempre do Ernesto Sampaio - quando lhe morreu a Fernanda Alves, disseram que ele morreu de amor pouco depois. As pessoas desistem, depois de determinadas fracturas. Como sou um optimista magoado (mas um optimista), gosto de acreditar que há sempre forma de encontrarmos dignidade nas desgraças. E o senhor Silva não podia morrer só de amor, tinha de aprender alguma coisa. Perceber a amizade, aprender que se pode amar de várias formas e mais do que uma pessoa.

É o aprender possível aos 84 anos?

Exactamente. A dada altura, ele diz que é incrível como é que, depois de uma vida inteira, ainda nos sobra alguma virgindade. A perda de uma ingenuidade, que não esperávamos ainda ser capazes de guardar, e o sofrer por outros. Como, por exemplo, pela morte do Esteves sem metafísica [o personagem que inspirou Fernando Pessoa no poema Tabacaria, seu companheiro no lar neste livro] que o conquista pelo lado da paixão intelectual e da poesia. Não nos podermos fechar em redomas com medo do frio da vida, sob pena de não percebermos o que é o calor.

É uma regra também para si?

Fez agora dez anos que o meu pai morreu. E eu aprendi a pensar que há um momento em que a saudade se transforma numa coisa feliz, como diz o Pereira [um cúmplice de Silva no lar]. Nós não conseguimos dizer nada quando morre alguém. Mas tentamos. A única coisa que fez luz no meu espírito foi pensar que, um dia, eu ia sentir orgulho e felicidade por ter conhecido quem conheci. Foi a única maneira de perspectivar que o sofrimento podia acabar.

O apocalipse, aqui, são as ausências?

Sim. É uma tentativa de percebermos que a memória é que é a nossa grande predadora. O que magoa é lembrarmo-nos. Mas temos de enfrentar a memória e energizá-la de forma diferente - como uma espécie de conquista, um troféu. Ter memória é como ter coragem. Neste livro, surgem frases como "o amor é para os heróis". Porque é preciso coragem para nos entregarmos e amarmos alguém incondicionalmente. Para abrir um espaço para que alguém ocupe a nossa memória, o nosso lugar de existir.

E abrir o abismo da ausência...

Sim. Os primeiros beijos que dei foram muito tarde. Aos 22 anos. Toda a gente tinha perdido a virgindade aos 13 e 14 anos. Achava que nunca iria beijar e que iria morrer virgem. Quem me dera que me tivessem agarrrado e violado de uma vez por todas: "Bem, vamos lá despachar o assunto." Mas eu esperei. E quando beijava, diziam-me: "Beijas sempre como se fosse a última vez." Porque havia uma urgência, um medo de que acabasse e já uma consciência de que era para acabar - no sentido em que, ainda que durasse a vida inteira, ia ser pouco. A última palavra deste livro é angústia. Foi a última palavra que o meu pai disse. É engraçado que, enquanto esteve saudável, ele era o mais lingrinhas dos pacientes. Era hipocondríaco e achava que tinha tudo e que ia ter um cancro, ia ter um cancro, ia ter um cancro. E, um dia, teve um cancro. A partir desse dia, sossegou. Nunca gritou, nunca se revoltou. No fim, o médico perguntou: "Senhor Jorge, sente o quê?" "Sinto angústia." E foi o modo como o meu pai definiu a vida, a morte, tudo. Às vezes, sinto assim. Nunca na perspectiva da tragédia, pois acho que corremos para a felicidade, mas não deixo de beijar como se fosse a última coisa.

Este livro foi recompensa ou exorcismo?

O meu pai tinha 59 anos, nunca chegou a viver a terceira idade, a reforma, a estar em casa com qualidade de vida, passando os serões no café, ou na pesca. Foi uma vida de responsabilidade e trabalho, quatro filhos, um filho que morreu, nenhuma recompensa. Levei muito tempo para chegar a este máquina. Os meus livros foram envelhecendo: o primeiro [o nosso reino, 2004] é sobre um miúdo de oito anos. Depois, o segundo livro, o remorso do baltazar serapião [2006, prémio José Saramago] tem um personagem que anda pelos dezoito anos. A Maria da Graça [de o apocalipse dos trabalhadores, 2008] tem quarenta e poucos anos. E este senhor Silva tem 80. Não sei se também eu não precisei de envelhecer. Posso entender a Maria da Graça, mas o senhor Silva é uma ficção de uma pessoa que não sou. Pode ocupar o espaço que o meu pai não teve e que eu não sei se vou ter. Fica feito.

Quão difícil foi escrever este livro, mais dramático do que os anteriores?

Foi muito mais difícil do que os outros. Os meus romances nunca são amenos: ou atravessam fases de grande ternura ou tristeza, ou então de algum hilário e grande humor. Tenho momentos na escrita em não consigo escrever, dói-me a barriga de tanto rir. E tenho, depois, crises de choro. Alguma coisa no texto me explicou algo que eu precisava de entender, ou expressou-me o que eu não sabia haver palavras para dizer. E isso é profundamente mágico. A máquina... pôs-me a chorar muitas vezes, e levantou-me problemas sobre até que ponto queria traduzir num livro uma perda tão real para mim. Aquilo que passa mais ao lado, transforma-se num objecto estético que podemos manusear com mais destreza. Mas se vier muito perto, muito dentro, por mais que seja uma obra literária, somos nós.

Neste Lar Feliz Idade, o rodopio dos quartos, brancos como a desintegração que intitula um dos capítulos, é temido pelos utentes. É a metáfora da morte?

É uma roleta russa, em que os quartos são os espaços do canhão onde a bala eventualmente entra. É um lugar de debitar corpos. Tem esse paradoxo de ser um sítio de conforto e o fim das coisas todas. Este lar do romance não existe. Mas fui a uma instituição em Vila do Conde, o lar da Ordem de São Francisco que fica, de facto, ao lado de um cemitério [como acontece no livro]. Saí de lá a chorar, achei tudo tão triste, tão triste, por mais que eles sorrissem e os empregados os tratassem bem - mas como se fossem crianças... Quando passámos numa zona onde estão os chamados 'descerebrados', que são uns "vegetais" angustiados com um olhar aterrador de quem padece muito mas não pode dizer nada, vimos uma senhora, num quarto, que nos olhava com angústia e tristeza tão grandes... É um viver contra o corpo, como escrevo no livro. Ela ainda quer fazer, sorrir, falar, viver, sentir tanto, e o corpo não deixa, o corpo está-me a matar, o corpo. É um filme de terror pensar nessa pessoa que quer falar e não pode, e depois vem aquele balde de água fria: "Isto é a minha mãe." Não consegui pôr esse "isto" no livro. Era tão violento e tão trágico, que transformá-lo em literatura era roubar-lhe dignidade.

A vida não tem finais felizes?

Em o apocalipse dos trabalhadores, Maria da Graça morre feliz. Este máquina é o estar trancado do lado de cá da vida, a porta não abrir-se. O senhor Silva diz que com a morte das pessoas que amamos, também a memória e tudo o que lhes pertencia deviam desaparecer logo. Amávamos, amávamos, mas a pessoa morria e nós, pura e simplesmente, não nos lembrávamos. Tudo morria. Seria uma grande injustiça, mas sobreviveríamos melhor.

Como a mente de um idoso, este livro sofre grandes saltos de ritmo e tom. Usa o flasback e alterna entre os registos cómico e dramático. Porquê?

As nossas tragédias não se interrompem. Ainda roídos de dor, podemos ter momentos de estranha elevação e abraçar histericamente uma alegria. Temos a consciência de que aquela emoção agride, porque é uma traição ao que se devia sentir - porque a pessoa que perdeste merece que sofras por ela. Mas é o instinto de sobrevivência, e é por isso que o livro faz essas oscilações. Aquele homem, sem se dar conta, começa a permitir-se pensar em outras coisas. Melhorar é uma traição, até chegar ao ponto em que as coisas se tornam cómicas e ele percebe que algo lhe estava reservado. E que, mesmo não estando ali a Laura, valeu a pena aprender - pelos dois.

Quando o personagem se abre ao mundo, tudo acontece neste livro. Incluindo a entrada em cena de personagens diversas, tanto fictícias como reais. Como é o caso do conservador do Museu de Arte Antiga, Anísio Franco, que existe mesmo...

Fiz uma visita ao Museu de Arte Antiga e aí conheci o Anísio, uma pessoa muito bonita, com uma energia muito alegre. Sou fascinado por museus, tal como era o meu pai. Nas nossas férias de família, íamos ver todo o pedregulho com mais de duzentos anos. O Anísio explicou os painéis de São Vicente, com aquele entusiasmo e talento muito dele, e eu já estava a arquitectar a máquina. Ando sempre com um caderno específico para cada livro, e comecei a tomar notas, porque percebi que aquilo era tudo feito para mim. Fiquei tão fascinado, que pensei logo "és uma personagem minha". Depois, falei com ele, para ver se não se importava, ou se não tinha alguma religião que não lhe permitisse, mas ele não se importou nada. O Anísio é a personagem mais benigna do livro, é o único que, no lar, acaba por reencontrar o amor. Cada vez me dá mais gozo fazer com que os livros sejam úteis - que não se esgotem, que estejam para além de serem um entretenimento, que sejam um percurso com o qual eu aprenda e me aproxime das pessoas e vice versa e, de vez em quando, que faça alguma justiça a alguém.

É uma marca dos seus livros, ter um olhar sobre os mais desfavorecidos.

Fui uma criança invisível. Era profundamente feio, magro, complexado, tímido, um aluno apático, nada puxava por mim. O que me galvanizava era só escrever uns poemas que não mostrava a ninguém. Era um jovem de que nunca ninguém se lembrava que esteve na sala. Consigo perceber bem porque é que as pessoas se calam, se anulam. O terem uma pergunta para fazer e não a proferir. Hoje em dia, desbloqueio isso nos encontros com as escolas, com as comunidades de leitores. Há muita gente que está quieta, mas com um movimento interior que se vê nos seus olhos. Há uma intensidade ali. Nessas alturas, passo meia hora a falar com os fala baratos, depois pergunto eu àqueles que ainda nada disseram. E dá-me um gozo enorme quando, fazendo eu as perguntas e descomplicando tudo, ao fim de umas horas vejo aqueles quietos falarem. E, mesmo na dinâmica de grupo, aquilo mantêm-se. As pessoas ficam amigas. Muitas mandam-me mensagens no Facebook. É essa ideia do livro ser útil.

Num capítulo de a máquina de fazer espanhóis, um livro é também, provocatoriamente, uma arma homicida...

Sim, é como se os livros não tivessem só uma dimensão boa. Podem magoar-nos, prejudicar-nos. Há livros que não servem para ser lidos. Sou muito crítico perante a ideia do 'mais vale ler um mau livro do que não ler nada'. É como dizer que vale a pena ver toda a televisão. Não. Acho que há livros que estupidificam as pessoas. Mais vale lerem uma boa revista a lerem um péssimo livro, só porque este está encadernado ou pertence a um autor conhecido. Os meus livros, são-no pela minha necessidade de os escrever. Espero que outros autores tenham o mesmo grau de necessidade e realização que eu sinto. Há uma crítica a esta deturpação e destruição do papel do escritor - acho que este nunca foi tão malvisto. Porque nunca, como agora, houve tanta gente que escreve livros mas que não é escritora.

Já é difícil separar o trigo do joio?

Os livros têm um problema: sejam bons ou maus, são feitos de papel e têm capas. E um livro mau pode ter papel e capa muito melhores do que um livro bom. E pode até ser mais barato. Dás cem euros por uma camisola, uma coisa caríssima, e as expectativas que levantas são altíssimas: aquilo tem mesmo de ser de qualidade. Uma Prada não se pode esgotar em duas semanas. Um livro não é assim, a menos que pagasses cem euros por uma obra do Lobo Antunes e um euro por um livro de um falso escritor. Sabias que estavas a comprar uma porcaria, uma coisa descartável. Mas não acontece assim. Enquanto que na maioria do mercado, podes ter uma certa expectativa provocada pelo preço que reflecte a qualidade, na arte isso não acontece. Por isso, alguma coisa tem a obrigação de separar o trigo do joio. Acho que isso está nas mãos dos críticos. E os escritores também são críticos, no sentido em que, ao publicarem, significa que acreditam.

No livro, fala-se também nesta coisa de sermos europeus, logo diferentes e melhores. A literatura está a sofrer um 'efeito Europa', uma padronização portanto. Este máquina é publicado numa editora ibérica com grandes ambições, a Objectiva pertencente ao grupo Santillana, para onde o valter se mudou recentemente. Porquê?

Mudei porque [os responsáveis editoriais] a Clara Capitão e o Alexandre Vasconcelos e Sá me apareceram profundamente apaixonados por mim. E quando isso acontece, eu apaixono-me logo de volta. Eles gostam tanto daquilo que eu faço que foi o primeiro passo para eu achar que podia trabalhar com eles. Acima de tudo, as empresas são pessoas. Vejo, por exemplo, a manutenção de um autor como Saramago num grupo como a Leya, e aquilo tem a ver com as pessoas. Pensou-se que, quando a Leya surgiu, que toda a gente saltava do navio a naufragar, mas os dinehiros passam por bolsas e especulações, e o que nós vemos são as pessoas. Esse foi o primeiro passo. Depois, senti alguma necessidade de me emancipar dos cuidados da Maria do Rosário [Pedreira, recentemente entrada na Leya] e da Ana Pereirinha [actual responsável editorial da Quidnovi], que eu amo mas que, por me terem visto aparecer, são como as mães: acham sempre que somos pequeninos. Há nelas um embalo de amizade que nunca me prejudicou em nada, mas que, a partir do momento em que o Alexandre e a Clara me apareceram com ideias profissionais de fazer chegar o livro às pessoas e de me estabelecer como autor - pois dedico-me à escrita e passo os meus dias a pensar no paragrafo perfeito - me fez arriscar. E meter-me com os espanhóis não me custa nada. Não quer ser espanhol, mas adoro-os.

Há, nesta máquina de fazer espanhóis, algum diálogo secreto com Saramago e o seu pendor ibérico?

Não. Quando vou a Espanha, aprendo coisas. Não é que não aprenda noutros países. Quando estive na Turquia, encontrei um espanhol. Não o Henrique de Badajoz do livro, que conheci mesmo em Espanha - ele nem sabe que está na máquina. Era natural sentir-me mais próximo dele do que de outras nacionalidades. Há todo um conjunto de sintonias que, pela proximidade e história, já estão estabelecidas. É natural que sejam os nuestros hermanos. O livro é uma ostentação de dizemos sempre que 'de Espanha nem bom vento nem bom casamento, mas que em Portugal é tudo uma porcaria e, portanto, quem nos dera ser espanhóis'. Se isto não é uma estupidez, pois não somos um povo estúpido, é um paradoxo que não conseguimos superar e que nos define. Sendo algo que nos define, temos que lidar com ele. Se eu fosse espanhol, seria um espanhol feliz e contente. Sou um português feliz e contente. Quando viajo, não consigo deixar de levar o fado, não consigo deixar de amar a Amália, o Zeca Afonso, tenho um profundo orgulho pelo Fernando Pessoa - como se nota neste livro. Se o Camões ressuscitasse agora, mesmo em ossinhos, eu ia para a cama com ele. Porque o amor por ele é profundo, deu-me uma identidade. Nunca renegaria a Portugal, mas acho piada que nos pensemos a partir das nossas idiossincracias, daquilo que falhamos. E acho que nos tornamos mais ternurentos quando percebemos que falhamos.

Este Portugal europeu empurra-nos para a vontade de ser espanhóis?

Corremos um certo risco da padronização, não só com os espanhóis, mas de irmos a Berlim e encontrarmos as mesmas pessoas, os mesmos comportamentos. Das semelhanças alastrarem como mato. Isso assusta-me um pouco. Acho que se perderiam coisas que temos e os outros não têm, e que são tão bonitas: uma certa predisposição à ingenuidade, à boa vontade, a sermos bons homens, como digo no início do livro. O nacional-porreirismo leva, em última análise, a uma bondade. Se nos pedirem, bem pedido, somos um povo que dá. Somos generosos com quem merece, uma noção de mérito que os outros povos têm menos. Suecos, dinamarqueses, alemães, são mais civilizados mas, ao mesmo tempo, desvitalizados, como acontece com os dentes: estão lá, lindos, maravilhosos, um metro e noventa, casas, carros. Vistos por nós, que somos mais emotivos, mais sentimentais, mais humanos, no imediato.

Porque escolheu este título?

Era para se chamar O fascismo dos bons homens. Interessava-me ver como perdura aquilo que existiu no tempo da outra senhora. Como é que alguém, que viveu nos tempos do fascismo, chega a velho? Como amadurece tudo aquilo? Temos de encarar o facto do Salazar ter sido eleito o português mais popular de sempre, ainda que num concurso palerma. Mas assustei-me com a possibilidade de, como aconteceu no apocalise dos trabalhadores, ser visto como algo profundamente politizado. Acho que os meus livros acabam por ser acerca das pessoas, aquém ou além dos partidos e governos. Mas a dada altura, o livro deu-me uma ideia muito cara, que é esta alucinação de algo que se ergue sobre nós como uma máquina. Os nossos medos projectam-se dentro de nós, articulam-se, juntam-se uns canos, uns cabos, umas agulhas e tudo parece uma monstruosa máquina que, a dada altura, opera para nos fazer alguma coisa. E o livro começou a chamar-se máquina. Máquina, máquina, o corpo é uma máquina, viver contra o corpo como uma máquina que se avaria e a que não se pode substituir peças. Ficou este título, uma provocação irresistível que já apareceu num poema meu, no livro Pornografia erudita [Cosmorama, 2007], onde digo que queremos ser portugueses nem que seja por casmurrice. Uma ideia que também remete para a velhice.

Mas este senhor Silva faz alguns acertos de contas, nomeadamente com as cobardias da juventude no tempo de Salazar, recordando por exemplo o episódio de um jovem perseguido pela Pide...

Não tenho o direito a acusar ninguém, pois não vivi naquele tempo. Não sei que cobarde seria eu. Depende do que haveria a proteger. Ali, havia a protecção dos filhos, do bom nome. Lembro-me de, nos anos 70, ainda se falar da honra. Lembro-me do meu avô, que construíu centenas de casas de pobre e nunca fez um contrato. E as pessoas, todos os meses, iam lá bater à porta e faziam o pagamento - até depois de ele ter morrido. Hoje, isto seria impossível. E isto diz algo sobre uma sociedade. Estávamos no domínio dos bons homens. Não podemos recriminar-nos de termos sido cúmplices. Não me sinto nada na posição de quem pode acusar. O que sei é que a censura me repugna, que sou um escritor e preciso da liberdade de expressão. E que, agora, chegou a minha vez de garantir que esta liberdade que nos deram tem de continuar.

Ainda falando dos personagens, permitiu-se a graça de incluir neste livro a aparição dos polícias Jaime Ramos e Isaltino de Jesus, inventados por Francisco José Viegas (por exemplo no recentemente editado O Mar em Casablanca). Foi uma liberdade narrativa, um arremedo de policial?...

Foi a minha oportunidade de usar maiúsculas. E formatei aquele texto: aquilo é roubado ao livro Longe de Manaus. E eles são de Valongo, dá para eu me meter com o Benfica. Eu só vejo futebol por razões patrióticas. É preciso ver que este livro tem Salazar, Deus, família e o futebol. Provocações que têm a ver com o lado divertido dos dogmas. Qual é a axiologia de um jogo de futebol? Porque é que as pessoas se descabelam com um jogo? Achei graça, ao ser um escritor do norte, meter-me com o Benfica. Eventualmente, vou ter o Viegas à perna. É uma homenagem que lhe faço: ele conseguiu recuperar um respeito pelo policial e levou os literatos a lerem um romance sobre este Jaime e este Isaltino, cartas fora do baralho.

Também Fernando Pessoa é evocado, através do 'Esteves sem metafísica', que o poeta citou no poema Tabacaria, e agora é um residente deste lar Feliz Idade...

Aí, interessou-me as questões pessoanas: a literatura ser ficção, o poeta ser um fingidor. Este Esteves, afinal, era um rapaz cheio de metafísica, que entrou num tormento existencial, tornando-se super consciente para, no fundo, não se comparar aos objectos - que não têm metafísica. Acaba por ser um jogo sobre o que acreditamos ser a literatura, à sua falsidade. Ainda que nós, escritores, estejamos convencidos que estamos a fazer algo pela realidade, é apenas a nossa realidade. A verdade é sempre profundamente pessoal e grandemente intransmissível.

A certa altura, lê-se que 'Deus é uma cobiça dentro de nós'. Há uma vingança sua?

Tenho um fascínio muito magoado pela religião e pelo catolicismo, mas tenho um respeito profundo pela imagem do Cristo. Ainda ontem, numa sessão de leitura de poemas, disse que me considerava mais cristão do que a maior parte dos católicos. Porque a maioria não distingue entre a Bíblia - um arrazoado de textos que disparam para todos os lados - e a palavra de Cristo. Quando na Bíblia, se diz 'e Cristo disse', o que vale a pena é o que vem a seguir. Tudo o que possa ser polêmico - se a Maria era virgem, se apareceu uma pomba, se existiu Maria Madalena, se ela dormiu com Cristo - tudo isso é um faitdivers, é telenovela da Bíblia. Mas em relação ao que o Cristo disse, não há normalmente polêmicas. São valores consensuais, verdades ou sentimentos tão humanos que não tens que os interpretar de outras maneiras. A religião, sobretudo o catolicismo porque é o que conheço, precisaria de uma honestidade, uma higienização, uma instituição que tomasse conta da defesa dos valores de Cristo, sem reprimir com base na Maria ter sido virgem. Aquilo é mentira: os padres dormem com as empregadas que têm dentro de casa, outros são homossexuais que dormem com quem encontram no café, os papas usam Prada, o Vaticano está cheio de tesouros, são uns vendilhões do templo. A igreja como instituição assusta-me e revolta-me, a figura histórica do Cristo merecia muito mais. Ainda que tenha morrido em vão, o facto de ter acreditado que morria por nós é suficiente para ser respeitado. A minha espiritualidade tem a ver com isso: o respeito por mim e pelos outros. Nesse aspecto, estou na mais profunda sintonia com Cristo. Aborrece-me que a igreja funcione invariavelmente como uma rolha que vai fechando, e o melhor que sabe fazer é pedir desculpa por algo que fizeram há cem anos atrás. Frustra-me que o lado mais atempado da igreja seja o pedido de desculpas. "Pedimos desculpa por termos excomungado o Oscar Wilde." Agora? Oh senhor, o Oscar Wilde a esta altura já conhece os mistérios divinos todos!

O que sobra na velhice é a crença divina, a corrida às santinhas?

Acho que somos quase impelidos a isso, a não nos lamentarmos porque foi Deus que nos escolheu e a acreditar que encontraremos as pessoas que perdemos. É uma forma de amenizar essa dor. Tem de ser obrigatoriamente mais fácil morrer se se acredita na transcendência. Há muita gente idosa que entra naquele frenesim das missas diárias, para que Deus veja, nos pratos da balança, que a virtude ganhou. Somos educados para comprar o céu.

Recupera também as "suas" efígies religiosas, como uma Nossa Senhora a quem chamam Mariazinha. Resistiu a um final feliz?

Hesitei se havia de colocar o senhor Silva a acreditar em alguma coisa. Tenho uma tendência para a espectacularidade nos livros, para um destrambelhar a realidade. Andei ali um tempo em que achei que a Mariazinha podia ganhar vida, o quarto encher-se de pombas reais, e ser um reboliço no lar, e todos os velhos acordariam espantados e contentes, uma coisa apoteótica. E eu ia escrever isto tão bem, duas ou três páginas tão bonitas! Mas ia criar um défice na personagem, deturpá-la. Tive que conter as pulsões de megalomania imaginativa. Ainda o fiz dançar por cima das flores, na campa da mulher - uma capacidade visual e performática de beleza física, de que sinto grande necessidade sempre. Acima de tudo, o que não pode acontecer num livro é violentar a personagem.

Foi uma fidelidade à personagem ou à memória do seu pai?

À personagem. Mas o meu pai, no último momento, acreditou. Era um indivíduo que achava que não havia nada. Ia às missas quando havia casamentos. Mas, no fim, achou que alguém ia estar à espera dele. Teve este milagre, e confortou a minha mãe - que achou que ele tinha sabido algo que nós não sabemos.

* Oito fotografias

É uma promessa para os próximos livros. valter hugo mãe deseja incluir nos seus romances, a partir de agora, imagens fotográficas suas que remetam para o universo abordado. No caso de a máquina de fazer espanhóis, entram oito fotografias que 'falam' da ausência, da mística, do quotidiano marcado pelos afectos. Abre com a imagem de um retrato do escritor feito pela sua mãe; depois, há fotografias de rua que evocam a religiosidade, o sexo e o fascismo, e uma folha escrita por Catarina (a menina de cinco anos, filha de amigos, citada numa das duas epígrafes do livro).

Segue-se a fotografia do caderno de notas que acompanhou a feitura deste livro, junto ao galo de Barcelos que repousa sempre junto ao computador de valter hugo mãe; a imagem lapidar de um prédio selado com cimento (onde, conta o autor, alguém teve a preocupação de escrever a giz o nome da desaparecida inquilina); o paradoxo de uma imagem captada no Vaticano. Por fim, a última fotografia é a de uma comovente página de notas sobre medicamentos escrita pelo seu pai.