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Ontem, em Miranda do Douro, foi assim

Trás-os-Montes

Passava pouco do meio-dia quando abrimos a Caravana VISÃO no Lhargo D. Joan III em Miranda do Douro. Os portugueses tardaram em chegar, mas quando finalmente chegaram foi em força. Houve escoteiros, confrades, estudantes e reformados, turistas - muitos, muitos espanhóis. LEIA A REPORTAGEM E VEJA AS FOTOS

Não chegámos a ouvir Clara Martins dizer nenhuma palavra em mirandês, mas foi por ela que soubemos que a língua mirandesa está de boa saúde e recomenda-se. Clara tem 12 anos e cresceu a ouvir os avós a dizerem "bila" em vez de vila ou "lhargo" em vez de largo. Quando entrou na escola primária (apesar de a disciplina não ser obrigatória) quis matricular-se nas aulas de língua mirandesa. Agora, no secundário, continua a ter a disciplina uma vez por semana. E será assim até ao 12.º ano. "O meu professor dá muitas lições por aí, em escolas de cá e de Espanha", conta.

Pedimos-lhe que nos fale da escultura que ocupa o centro da Praça. "O senhor está vestido com a capa de honra mirandesa, que era usada pelos homens que tinham cultura e muito dinheiro. A mulher tem um xaile mirandês, sempre com as franjas, e a algibeira. À frente põe as coisas de que precisa para levar para o campo, atrás carrega lenha." A mãe de Clara, Alice Martins, acrescenta que a capa era usada pelos homens quando iam à missa. Hoje, diz, "só o Presidente da Câmara a usa quando recebe visitas importantes". O amor de Clara à língua e às tradições mirandesas pode enganar. Gosta muito da terra onde nasceu, mas é em Lisboa, onde "há mais gente e monumentos" que quer ir estudar Medicina e morar.

Quando, duas ou três vezes por ano, este grupo de espanhóis de Salamanca decide vir a Portugal comer "bacalao", hesita na escolha do destino: Almeida, Vilar Formoso ou Miranda do Douro?

Ontem, optaram pelo caminho mais curto (uma hora de viagem). Mas nem foi tanto pela distância. "Aqui os comércios contam histórias de outro tempo. Têm a mesma porta, o mesmo balcão, o tratamento personalizado", nota Felipe Sanchez, 54 anos, dono de uma empresa de bolos que o leva a atravessar a fronteira para o lado de cá do Douro todas as semanas. Margarita Rodriguez ajuda o amigo: "Aqui vive-se o ambiente castiço, puro, de sempre. Como se te transferisses para outro mundo", atalha, que há pressa para provar o bacalhau à Brás e com Natas que os aguarda no restaurante.

Seriam 2 da tarde quando uma imensa mancha preta e cor de vinho tomou conta da praça. Foi preciso subir a um escadote para conseguir pôr todos os membros da Confraria dos Vinhos Transmontanos dentro de uma fotografia só. Cruzaram-se com a Caravana VISÃO à saída da Sé de Miranda, onde tinha decorrido a entronização de trinta novos confrades. Gualtar Martins, de 50 anos, faz as apresentações: "Queremos promover, divulgar e valorizar no País e no estrangeiro os vinhos transmontanos." A sede é em Valpaços, foi lá que esta confraria nasceu, há dois anos, por iniciativa de confrades produtores de vinho. Hoje tem representantes de todos os concelhos, produtores de vinho e não só. Para ser confrade basta gostar de vinho e de Trás-os-Montes. José António Silva é o mestre de cerimónias. Ergue o padrão da Confraria, com uma cepa em forma de V ("de vinho e de Valpaços", explica) e uma cabaça que se levava para as tarefas do campo "e era onde tradicionalmente se bebia o néctar". O que distingue afinal os vinhos transmontanos? "Os aromas. Os vinhos tintos são vinhos machos, encorpados, com alma", responde Gualtar. Da praça os confrades seguiriam para a prova de vinhos na Estalagem de Santa Catarina.

Não há ano em que o casal Aurora Ortega, 75 anos, e Baltazar Fontanilla, 83, não venha pelo menos uma vez a Miranda do Douro. São espanhóis, de León, mas isso não os impede de serem devotos do Menino Jesus da Cartolinha, a imagem mais conhecida da Sé de Miranda. "Venceu-nos, mas nós adoramo-lo", diz Aurora, emocionada.

Contam as gentes de Miranda que por altura da Guerra da Restauração, em 1711, estando a cidade cercada pelos espanhóis, sem mantimentos ou munições que lhe permitisse resistir, apareceu um menino nas ruas incentivando o povo a continuar a luta. O apelo da criança surtiu efeito. De enxadas, paus e forquilhas fizeram-se armas e, assim, os portugueses se libertaram do invasor. O menino, esse, ninguém voltou a encontrá-lo, mas para a história ficou como sendo o Menino Jesus.

"Interveio para salvar os seus, e todos os que se metem para ajudar aqueles que estão a ser vítimas para mim são abençoados", diz Aurora, justificando, assim, a adoração que tem ao Menino. O que ela não sabe, certamente, é que figura de altar com guarda-roupa como o do Menino Jesus da Cartolinha dificilmente haverá outra. Do traje de oficial de cavalaria, que normalmente traz vestido, ao fato-macaco e ao pijama, passando por sapatilhas, socas e até jóias (anéis de curso, pulseiras, insígnias), nada lhe falta. Tudo oferendas dos devotos. Muitas são as grávidas que fazem promessas para que lhes corra bem o parto e vêm depois trazer-lhe uma peça de criança.   

A loja de António Martins, 72 anos, dá para o Largo da Câmara. Tem o teto repleto de candeeiros. É um comércio como muitos em Miranda, virado para os espanhóis. Há atoalhados, bronzes, pijamas, navalhas... de tudo um pouco. A mercadoria está espalhada logo à entrada, no pátio que dá acesso à loja, com seixos do rio no chão. "Dantes era aqui que quem vinha das aldeias prendia o macho, porque era fresquinho", conta-nos.       

Ricardo Baptista justifica o vermelho dos olhos com alergias, mas mais tarde, quando dois colegas escoteiros se juntarem a ele na nossa mesa de trabalho da autocaravana, há-de dizer que a noite foi longa. Ricardo é de Macedo de Cavaleiros, Susana Rocha de Beja e José Manuel Costa de Braga. Vieram a Miranda reunir-se com mais cerca de 80 dirigentes escotistas de Portugal e Espanha na quarta edição do Travessia, um encontro que pretende "quebrar barreiras" entre os grupos escotistas dos dois países, para organizarem mais actividades em conjunto, explicam.

A Caravana  VISÃO despediu-se de Miranda ao som de gaitas de foles e dos pauliteiros. Com as suas danças guerreiras, motivadas pela localização fronteiriça destas terras, os pauliteiros recordam tempos em que as lutas com Castela eram uma constante e animam em vários fins-de-semana do mês as ruas de Miranda.