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Poesia é liberdade

Douro

A nossa viagem começou com um boa dose de poemas. Fomos a uma sessão de VOZ, em Santo Tirso, um recital pensado pelas Produções Fictícias para estudantes do secundário

O ator João Lagarto, 56 anos, levanta-se, larga a sua pose blasé e agarra no microfone. "Poesia é um espaço de liberdade." Tem casa cheia. A plateia - alunos do secundário da escola Tomaz Pelayo, em Santo Tirso - espera pelas suas palavras. "Preciso de voluntários", arrisca logo no arranque. Tiago Pereira, 16 anos, avança, sem medos. Lê o poema que o ator lhe passa para a mão, sem gaguejar. Estamos numa sessão de Voz, um recital de poesia pensado pelas Produções Fictícias - já foi programa de televisão e agora vende-se um resumo em DVD - para cativar alunos para este tipo de literatura. "Os textos devem ser percebidos pelo coração e não apenas com a cabeça", ensina João Lagarto.

O discurso tem vindo a ser afinado à medida que passa por diversas escolas do País. "Agora vamos ouvir o mesmo poema dito por David Fonseca". Ouvem-se joviais suspiros femininos na assistência... Na parede branca aparece a cara do vocalista dos Silence 4. "Amar é uma eterna inocência", são palavras de Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, há de explicar o ator. Assim se passa a hora seguinte, entre poetas, poemas e poesia. Ora ditos ao vivo, ora projetados, nas vozes de pessoas tão diferentes como João Reis ou Inês Castelo Branco.   

Saem três meninas do auditório. João Lagarto força o silêncio, para mostrar desagrado. Nem por isso as entradas e saídas acabam. Soltam-se algumas palavras mais indecorosas quando Bocage vem à baila. E a mostra termina com Raul Solnado a dizer Fernando Pessoa, em forma de Liberdade. Ouvem-se palmas. E o professor de português, António de Sousa, ergue-se: "Tem mais um minuto?" João Lagarto cede o palco a uma espécie de improviso de alguns estudantes. Tiago volta ao palco, imponente, soltando palavras de António Gedeão. Seguem-se meia dúzia de outros alunos.

 

De repente, a sessão transforma-se numa espécie de Ídolos, versão poesia. No final, depois de Impressão Digital (outra vez Gedeão) na voz do professor entusiasta, há direito a autógrafos e fotografias com a estrela da tarde. João Lagarto apressa-se a sair. Ainda o esperam mais de 300 quilómetros até à capital. Acede a espreitar a nossa autocaravana, enquanto fuma um cigarro. Diz-nos que se sente apenas "uma vírgula, ou quanto muito um ponto de exclamação. O centro disto são os poemas projetados". Quase que apostamos que os alunos que acabaram de o ouvir não pensam assim.