Durante mais de um ano, foram muitas as vezes em que a historiadora Helena Matos acordou a meio da noite, em sobressalto: "Aquela imagem a que dei OK será mesmo de uma manifestação do MRPP?" Não foram em vão as suas insónias. A série que ajudou a fabricar, Depois do Adeus, que estreou às 9 da noite, no último sábado, 19, na RTP1, é hoje motivo de orgulho.

Para a produtora SP Televisão, para o canal público que a encomendou no seguimento do êxito Conta-me Como Foi e para todos os profissionais que nela colaboraram. Se não for por mais nada, ficará na história como a primeira obra de ficção televisiva a tratar da questão dos mais de meio milhão de retornados que chegaram a Portugal, vindos das ex-colónias, a partir de 1975, numa das maiores pontes aéreas mundiais de sempre de evacuação de refugiados.

"Trabalhámos sobre memórias que ainda estão vivas, sobre uma ferida aberta", descreve Jorge Marecos, administrador da produtora.

O rigor histórico foi, por isso, uma premissa indispensável. Havia que fazer o enquadramento político-social, mesmo antes de Inês Gomes e a sua equipa de guionistas, todos nascidos depois do 25 de Abril, darem início à escrita dos 26 episódios.

Pormenores como aquilo que se cozinhava numa época em que faltavam produtos nas lojas, marcam a diferença. "A forma como se vivia deve parecer natural e não explicada", diz Helena Matos, 51 anos. "Tentei ser o mais realista possível, sem me esquecer de que se tratava de uma ficção", acrescenta Inês Gomes.

Depois de os episódios estarem escritos, a historiadora revia-os ao pormenor. As discussões acesas e as perguntas inusitadas, como o preço de um produto, fizeram parte do processo criativo.


'UMA MALA CHEIA DE NADA'

Talvez por estarem lá todos os pormenores, do cabelo masculino comprido, à linguagem utilizada ou às camisas de colarinhos exagerados, Leston Bandeira, 70 anos, acenou, muitas vezes, com a cabeça, como quem se recorda de momentos vividos, enquanto assistia ao primeiro episódio da série.

O antigo jornalista emigrou para Angola, quando tinha 8 anos, e só regressou a Portugal em março de 1977, aos 35. "As pessoas sentem saudade de uma coisa que já não existe. Eu fiquei lá e, em dois anos, vi tudo a ser destruído." Ficou, porque era politicamente ativo, militante do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), mas acabou por ter de abandonar a terra que ainda diz ser a sua, por temer pela pele.

Para trás deixou tudo. A primeira mulher, dois filhos, a casa alugada, uma terra que estava a cultivar e as poupanças no banco. Não era rico, mas vivia bem.

Quando aterrou em Lisboa, trazia "uma mala cheia de nada" e um filho na barriga da segunda mulher. Não tinham para onde ir. Durante algum tempo, alojaram-se em casa de um irmão dele, depois aproveitaram o apartamento vazio de um amigo. Seis meses após o retorno, estavam ambos a dar aulas de História, ele em Lagos, ela em Torres Vedras, quando as estradas não eram o que são hoje e nem carro tinham. Salvou-os a ida, ainda nesse ano, para a Guiné-Bissau, como cooperantes.

A série começa com imagens de arquivo de uma Luanda vibrante, em que colonos e colonizados circulavam, numa mistura aparentemente saudável. "Havia racismo de parte a parte, mas todos convivíamos bem", lembra Leston. Logo no primeiro bloco de imagens a preto e branco, as personagens principais aparecem integradas e em interação com o passado.

A realizadora Patrícia Sequeira, 38 anos (feliz por ter sido a primeira a mexer neste valor dramático da nossa história) realça a novidade técnica, pioneira em Portugal. Os elementos reais são inseridos no croma para que o ator consiga, por exemplo, apoiar-se numa mesa que esteja na imagem de arquivo ou aparecer ao lado de um político da época. "É um upgrade, ao nível da execução técnica, ter atores em movimento integrados em imagens em movimento." Para essa técnica resultar, os personagens têm de ser idênticos às pessoas reais da época.

Foi preciso encontrar o estilo certo nas revistas de moda, nos jornais, nos filmes caseiros, em documentação histórica. "Houve uma estética fantástica para utilizar. Mandámos fazer a roupa, porque não podia ter um ar antigo", conta Patrícia. Os elementos dos cenários foram encontrados em armazéns e junto de colecionadores.


'ÉRAMOS REFUGIADOS'

A angústia de chegar sem nada a um país, onde não se tem nem referências nem emprego, é transmitida pelos protagonistas da ficção, mas também foi vivida pelos protagonistas da realidade. "Ser retornado era pesado, quase como usar as estrelas dos judeus. O termo não fazia sentido: nós não éramos retornados, mas sim refugiados." As palavras são de Leston Bandeira, mas também se ouvem na televisão ("Não podemos retornar, porque nunca aqui estivemos").

O jornalista lembra-se, por exemplo, das expressões que os retornados traziam de Angola e que, muitas vezes, eram evitadas para não revelarem um passado: geleira (frigorífico), chibambo (autocarro) ou até bué, muito usado no bas-fond angolano. "Ficámos sem o nosso passado, perdemos a possibilidade de ir 'à terra'. Só voltei a Luanda depois de 1985 e tive sempre aquela sensação simpática de estar a chegar a casa, algo que não sinto quando aterro em Lisboa."

Fazer ou falar de política era o normal, naquele período conturbado do PREC (Processo Revolucionário em Curso). E as discussões, acesas, entre fações antagónicas acabavam, por vezes, em pancadaria. "A política era um consumível", resume Leston. Ao longo da série, as ideologias, defendidas com unhas e dentes, ganharão cada vez mais protagonismo.

Porque recordar que elas existem é bom. Hoje mais do que nunca.