Hora do almoço, na mais recente padaria biológica de Lisboa. Quinoa fica na Rua do Alecrim, descendo do Chiado para o Cais do Sodré. Passando uma porta de vidro, sentese o cheiro a pão, nota-se que as mesas pretas estão todas ocupadas. Ouve-se, por entre os acordes de jazz que saem das colunas, falar inglês. Avança um grupo de engravatados, logo seguido de uma mão-cheia de jovens fashion. Na ementa, diversas sandes e tostas, de pão biológico, está claro. A sala seduz há, ali, uma harmonia entre a traça antiga e a decoração que obedece às linhas limpas da modernidade.

Com a agricultura biológica acontece o mesmo. Inspira-se na forma tradicional de cultivo, recorrendo a novas tecnologias e a conhecimentos agronómicos revolucionários.

A procura de produtos saídos desta equação aumenta exponencialmente, atraindo uma mancha cada vez mais diversificada da população, como se pode observar naquela padaria, quase restaurante. Para fazer face à situação, tem-se verificado, nos últimos anos, em Portugal, o crescimento acelerado da produção em modo biológico, à imagem de Espanha e da Grécia. Atualmente, 6,3% da área cultivada, no nosso país, não leva químicos uma percentagem acima da média europeia, que se fica pelos 4,2 por cento. "Uma parte importante desta dinâmica de desenvolvimento deve-se aos apoios dados a este tipo de cultivo, através da Política Agrícola Comum da União Europeia [UE]", lê-se num relatório da Comissão, de fevereiro do ano passado, dedicado à análise do setor.

Em 1993, Portugal apresentava uns meros 3 mil hectares de área de cultivo biológico. Em 2007 (últimos dados disponíveis), já eram trabalhados mais de 233 mil hectares, segundo dados da UE. Números que ficam a milhas de Itália, a recordista, que, naquele ano, somou mais de um milhão de hectares limpos de pesticidas. O nosso crescimento avalia-se ainda pelo salto de 73 agricultores, em 1993, para praticamente 2 mil. Em quatro anos (2004-2008), quase duplicou o número de produtores de animais, passando de 446 para 792.

28%
Valor em que, na Europa do Norte, a agricultura biológica se superioriza, em relação à produção convencional, na retenção de carbono no solo. Em todos os outros países do Velho Continente, recentemente analisados pela britânica Soil Association, a percentagem comparativa é de 20% no mesmo sentido 


LOJAS COMO COGUMELOS
Até 2006, só existia um supermercado especializado, na área de Lisboa, junto do aeroporto de Figo Maduro, para satisfazer os consumidores. Mas a Biocoop, a cooperativa que o inaugurou, em 1993, sempre se destinou apenas a sócios. Desde esse ano, e indo atrás da onda da procura, tem aberto mais de uma grande loja por ano, só na capital. O Brio de Carnaxide, em Oeiras ( já existe outro em Campo de Ourique, Lisboa), foi o último a estrear-se, em novembro passado. Com o apoio do The Edge Group, de cujo capital Paes de Amaral detém 50%, estão prometidas mais três inaugurações na zona de Lisboa. A próxima está para breve, na Lx Factory. A grande loja recém-inaugurada, com 400 metros quadrados, tem amostragem diferenciada e, embora apresente uma extensa variedade de produtos (mais de 6 mil), tenha cartão-cliente e entregas ao domicílio, não cheira a supermercado. Leem-se frases sobre os benefícios da agricultura biológica nas paredes, há frutos secos a pedirem para serem provados, frutas abertas para não enganarem ninguém, e um ambiente tranquilo. Também é possível tomar uma refeição ligeira, constituída por sopa, sandes (de pão ali fabricado), salgados e doces. Outro lugar para satisfazer quem anseia por refeições isentas de químicos, à hora do almoço.

Portugal não dispõe de dados sobre os consumidores destes produtos, mas Jaime Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (Agrobio), sente-se à vontade para afirmar que a procura já é maior do que a oferta, sobretudo no que toca a fruta e legumes. As pastagens e o olival ocupam as nossas maiores áreas de produção. Apesar de todos os avanços, ainda se registam 50% de importações, muitas delas de França, Alemanha ou Reino Unido, os três maiores mercados da UE. Consultando os seus 5 300 associados, Jaime Ferreira consegue dizer que as vendas já terão atingido 10 milhões de euros. Uma migalha nos mais de 120 países onde existe este tipo de fabrico alimentar, o mercado da agricultura biológica movimenta cerca de 33 milhões de euros, com mais de 35 milhões de hectares cultivados em todo o mundo, por 1,4 milhões de produtores.

7,7
milhões Hectares de produção biológica na Europa dos 27, representando, apenas, 4,2% do total da área agrícola. Em 2007, estimava-se que houvesse 187 mil explorações 


UM SUCESSO CHAMADO MIOSÓTIS
Graça Castanheira, 48 anos, documentarista, acaba de encher a bagageira do seu carro com alimentos biológicos. Saiu carregada de um dos supermercados Miosótis, que fica junto da Gulbenkian, em Lisboa. Eis uma cliente habitual, daquelas que Ângelo Rocha, o proprietário, trata por tu. "Há 20 anos que consumo apenas estes produtos. No início, não era fácil, só encontrava vegetais", conta a cineasta. Para ela, macrobiótica, trata-se de uma prioridade, já que considera que "na industrialização se utilizam químicos, derivados do petróleo, muitíssimo prejudiciais ao organismo. Sei que a minha qualidade de vida está muito melhor, desde que fiz esta opção". O preço não a incomoda: "Um pacote de tiras de milho pode custar três vezes mais do que um de batatas fritas, mas eu como um terço. Sou disciplinada em relação à comida." E previne-se, poupando nas contas do médico. Aproveita, habitualmente, a hora do almoço para as compras, duas vezes por semana. Quando as despacha, sentase à mesa da cafetaria e prova a sopa, naquele dia de ervilhas, a que, normalmente, soma uma sande, rematando com uma fatia de tarte ("Está ótima", exclama).

Ali ao lado, no supermercado, continua o entra-e-sai. Mais mulheres do que homens, comprovando que são elas quem decide o que pôr na mesa lá de casa. Ângelo nem parece estar a trabalhar. Fala do tema com a paixão de um pioneiro que anda nisto há 25 anos. Durante uma década foi produtor, num terreno perto de Sintra. Primeiro, transacionava com as grandes superfícies, depois passou à venda direta, informal. Também teve uma banca, nas feiras de Carcavelos e de Cascais. Isso antes de fundar, com outros sócios, a Biocoop, e de estar na génese das associações Agrobio e Interbio. Há três anos, abriu a primeira loja Miosótis, na Óscar Monteiro Torres, ao Campo Pequeno, em Lisboa. "Ao fim de um ano, já tínhamos superado as expectativas. E como lá não havia armazém, nem zona de descargas, decidimos abrir outro supermercado, com talho e cafetaria." Hoje, passam pelos dois lugares cerca de 650 pessoas por dia.

11%
Percentagem de redução das emissões de gases com efeito de estufa, se ocorresse uma significativa mudança mundial para a agricultura biológica
 


COMIDA EXÓTICA
Há um ano, Kattia Hernandez, mexicana residente em Portugal desde 2003, descobriu o mundo biológico. A cada dia que passa, abre mais o leque das suas compras. Começou pela comida do México, agora rende-se ao requeijão, ao tomate, à abóbora, aos iogurtes, à carne, às bananas. "Noto diferença no sabor. Os alimentos são muito mais frescos." Pedro Lopes, 41 anos, comercial e instrutor de tai chi, partilha da mesma opinião, enquanto vai enchendo o seu cesto de iguarias: "As frutas são mais pequenas e feiinhas, mas o sabor é genuíno." Pedro atravessa a cidade, uma vez por semana, para se abastecer na Miosótis, pois o seu consumo alimentar atinge os 90% de biológicos. A variedade de produtos originais funciona também como um chamariz. Nos escaparates deste supermercado e de outros do mesmo género encontram-se vários tipos de tomate, por exemplo, rebentos de beterraba ou couve roxa, pastinacas, couve romanesca, quinoa, bulgur. "A agricultura biológica fomenta a diversidade de culturas", assegura Ângelo Rocha. Nem por isso se destina simplesmente aos que optam por este específico regime alimentar ou serve apenas um nicho da população. Essa ideia errada nasceu nas grandes superfícies, locais onde estes alimentos são mais caros, como lembra o vice-presidente da Interbio: "Vendia-lhes as alfaces a 250 escudos e via-as depois a 750 o quilo, criando a sensação de que estes produtos eram um luxo. Ainda hoje fazem isso, apesar de os preços estarem muito mais acessíveis, com exceção das importações."

Paga-se mais 30%, mas compra-se um produto que passa por um apertado controlo de certificação, em que os consumidores podem confiar. No caso da agricultura convencional, ninguém fiscaliza a utilização de pesticidas. A lei existe, mas será sempre cumprida?

25%
Média anual de crescimento da produção biológica, na Europa, entre 1990 e 2000

EM BUSCA DO CORPO 'LIMPO'
Paga-se bem por alimentos que podem ter mais 20% de matéria seca e que, por isso, são superiores em nutrientes. Pelo menos quanto aos citrinos, Amílcar Duarte, 48 anos, agrónomo da Universidade do Algarve, já tem certezas absolutas: "Na agricultura biológica existe maior percentagem de polpa e menor de casca. O azoto utilizado no modo comum de cultivo faz com que a casca se torne mais espessa e a percentagem de sumo diminua. A quantidade de vitamina C também é superior, quando não se utilizam químicos."
 
A nutricionista Paula Ravasco, 34 anos, investigadora do Instituto de Medicina Molecular, não encontra publicações que evidenciem o impacto dos biológicos na saúde de quem os consome com regularidade. "A proteção das células conseguese com qualquer alimento, desde que se respeitem as quantidades preconizadas na pirâmide", diz. Quanto ao conteúdo nutricional, "não está demonstrado qualquer benefício". No entanto, defende que "se uma pessoa tiver possibilidade de escolher, estes produtos poderão apresentar um sabor diferente por não levarem adição de químicos". A nutricionista acrescenta que os alimentos convencionais crescem com demasiada rapidez, à custa do azoto nas águas da cultura. Como consequência direta, têm, na sua matéria, muito mais líquido e, por isso, a quantidade que se ingere é maior para atingir o mesmo nível de saciedade. "Os produtos biológicos são mais concentrados, estimulando os recetores do paladar e fazendo com que se coma menos volume de determinado alimento", explica Paula Ravasco.

A médica Cristina Sales defende, com veemência, as vantagens para a saúde dos produtos biológicos. E, ao contrário de Paula Ravasco, já encontrou estudos que comprovam a sua opinião. Um deles, publicado no jornal Agronomy for a Sustainable Development, assegura que os produtos biológicos apresentam níveis superiores de vitaminas, ácidos gordos omega3, fenóis, polifenóis e resveratrol, e mais minerais como o cálcio, o magnésio e o ferro. "Comer biológico será sempre melhor, porque, à partida, tem 0% de substâncias tóxicas. Nos últimos 50 anos, apareceram milhares de agrotóxicos, químicos e corantes com os quais o nosso organismo não sabe lidar, acabando por arrumá-los, sobretudo, nas células gordas. O efeito que estas substâncias ali arrumadas podem ter é imprevisível", afirmou a especialista em Medicina Funcional Integrativa, à margem do 3.º Congresso Nacional de Agricultura Biológica, que decorreu, recentemente, em Braga.

€33 mil milhões Valor atualmente movimentado pela agricultura biológica, em mais de 120 países


LADO A LADO COM O PRODUTOR
Está uma manhã de sábado gélida. Nem por isso os consumidores habituais do mercado de Algés, nos arredores de Lisboa, a funcionar há menos de um ano, ficam em casa. Munidos de grossos casacos, luvas, cachecóis e sacos de compras, andam para a frente e para trás, analisando os produtos e os preços, nas diferentes bancas. Alguns clientes são tratados com deferência, porque esse é o espírito. Corta-se uma maçã com canivete e dá-se a provar, fala-se dos benefícios de alguns alimentos, há cumplicidade no ar.

Maria Isabel, 67 anos, tem o saco cheio de beringelas, batatas, castanhas, batatas-doces e uma alface. Contas feitas, gastou 15 euros. A quantidade que leva dá-lhe para toda a semana e até para presentear a irmã, que, desta vez, não a acompanhou nas compras matinais. "Pode ser mais caro, mas a qualidade é outra. Os produtos são naturais e não engordados à força. Não percebo como as pessoas continuam a comer tanta porcaria.", justifica-se. Antes de terminar o seu passeio, ainda compra alhos, cebolas, quivis e maçãs. Soma mais dois euros ao gasto inicial. Os mercados de rua têm crescido a um bom ritmo, em todo o País. Depois do sucesso alcançado no Príncipe Real, no centro de Lisboa, agora espalham-se por Matosinhos, Aveiro, Oeiras, Cascais e Algés. E a Agrobio, que organiza esses espaços de venda direta, anuncia outro, para breve, no Largo de Santos, em Lisboa. "Trata-se de uma valia para a cidade, pois provoca dinâmica. Além de ajudar a promover o modo de produção biológica e ser mais um ponto de escoamento para os agricultores", explica o presidente, Jaime Ferreira.

9,5%
Aumento do número de produtores biológicos, entre 2007 e 2008, na União Europeia, acompanhado de um acréscimo de 7,4% da área agrícola
 

Joaquim Vicente, 69 anos, e Maria Beatriz, 64, saíram de Santarém às cinco e meia da manhã. Três horas depois, já tinham a banca montada no mercado de Algés e estavam a atender o primeiro freguês. Conhecem a maioria dos que ali param. Trocam dois dedos de conversa, mostram os seus produtos, fazem as contas num caderno quadriculado, pesam as compras numa balança à moda antiga, que convive com uma grande calculadora e um telemóvel. Em cada semana, levam de volta uma média de 250 euros. "Produzimos menos porque não usamos fertilizantes, mas compensa. Eu e a minha mulher tínhamos muitos problemas alérgicos e com este tipo de alimentação melhorámos em 80 por cento", revela Joaquim.

1 600
Número de produtores biológicos em Portugal, em 2005, quando, em 1993, não chegavam aos cem. Os hectares cultivados, por consequência, passaram de uma cifra insignificante para perto de 25 mil


HORTAS URBANAS
"Sabe-se hoje que um grande número de pesticidas está associado a doenças do sistema nervoso, alergias, alterações no balanço hormonal, diminuição da fertilidade, enfraquecimento do sistema imunitário e incidência de diversos tipos de cancro." É Jaime Ferreira quem o escreve num artigo, baseando-se na British Medical Association. Este panorama piora quando se pensa nos resíduos múltiplos, ao ingerirmos vários produtos de fabrico convencional.

Optar por um consumo biológico é fugir deste cenário, mas também pensar no ambiente. Este modo de produção agrícola diminui entre 48% e 60% as emissões de CO2, especialmente pela não utilização de pesticidas. Metade da energia gasta na agricultura relaciona-se com a produção industrial e o transporte de adubos de síntese.

Ao mesmo tempo, os biológicos combatem a monocultura, promovendo rotações no terreno, o uso de adubos verdes e a luta natural contra pragas e doenças. Com este tipo de atitude fomenta-se o equilíbrio da Terra e defende-se a biodiversidade.

São estes os princípios pregados nos cursos de formação dos agricultores urbanos que têm surgido nos arredores das grandes cidades. José do Rego, 70 anos, mexe-se no meio do seu talhão, com algum à-vontade. Ele e mais quatro vizinhos partilham uma horta comunitária, no Alto do Gaio, em Cascais. O tipógrafo encontrou neste hóbi, proporcionado pelo Gabinete Agenda XXI da autarquia, o passatempo ideal para queimar as horas da reforma. Mas, entretanto, sabe-a toda. "Ensinaram-me a fazer um produto para afastar as lagartas, usando um quilo de urtigas para dez litros de água, e pulverizando-o durante três dias para cima das minhas couves." Explica ainda que as ervas de cheiro, como os coentros ou o alecrim, afastam as pragas, e as borras de café assustam os gatos.

Alguns destes novos agricultores tinham noções de cultivo, mas estavam a zero, no que respeita aos truques do modo biológico. Hoje tratam a compostagem por tu e nem precisam de cábulas para combinar as sementes que devem viver lado a lado. O consumo dos produtos que tiram da terra funciona como uma ajuda ao orçamento familiar, promovelhes uma atitude mais saudável e, com as sobras, ainda fazem oferendas. Todos reconhecem o sabor legítimo dos alimentos que eles próprios retiram das hortas. Na Área Metropolitana do Porto, a empresa Lipor criou o projeto Horta à Porta e já atribuiu 429 talhões, formação adequada, um compostor para cada agricultor, um abrigo de ferramentas e água disponível para a rega. Neste momento, têm quase 1 400 pessoas em lista de espera.

Em Loures, a iniciativa vai mais longe, como explica Emília Figueiredo, 38 anos, vereadora do Desenvolvimento Socio-Económico. Diz que a Câmara decidiu apostar em "dinamizar localmente a economia e os mercados agrícolas, encontrando, na agricultura biológica e nas suas vantagens ambientais e sociais, uma importante ferramenta para o ordenamento e sustentabilidade do território". A autarquia assinou um protocolo com a Agrobio, para ações de formação e divulgação junto da população, lançamento de hortas comunitárias e empresariais, organização de um mercado de rua e introdução de alimentação biológica nas escolas.

15%
Estimativa máxima do crescimento anual do mercado de agricultura biológica

POLÍTICA NACIONAL, PRECISA-SE
O Poder Local está sensibilizado para esta alternativa à produção intensiva. E o Central? Cristina Hagatong e Eduardo Diniz falam pelo Gabinete de Planeamento e Políticas do Ministério da Agricultura. Defendem-se dos que criticam a falta de um plano estratégico para o setor. "Esse plano, onde definíamos metas, existiu até 2008. Hoje, estamos mais vocacionados para os apoios e parcerias." Garantem que nunca foi reprovada nenhuma das candidaturas ao PRODER, consideradas prioritárias e com níveis de apoio majorado. E reconhecem que o perfil dos candidatos está a mudar: os agrónomos biológicos são mais jovens e com melhores habilitações, e mostram-se dispostos a aceitar os desafios deste modo de produção.

Alfredo Cunhal Sendim, 43 anos, da Herdade do Freixo do Meio, em Montemor-o-Novo, encaixa na perfeição no retrato. Talvez por isso integre o grupo de peritos que o ministro António Serrano criou para acompanhar a reforma da política agrícola. É o único representante da área biológica. "O mercado só crescerá se o Estado assumir isso como uma estratégia nacional. Sabemos que este modo de produção apenas existe porque a União Europeia percebeu como era importante investir nele." Para estimular o Poder Central, elaborou um esboço de plano nacional, a ser entregue ao ministro, com contribuições de todo o setor, onde expõe as principais reivindicações de quem se dedica ao biológico. "O mais importante é criar consciência no consumidor ele tem de perceber que se trata de uma teia de problemas e não apenas de comer saudável e saboroso", indica Alfredo Sendim, que converteu a sua herdade há 12 anos "de uma forma pouca digna e passando por muitas dificuldades".

Apesar de se encontrar um pouco a leste dos problemas causados pela intensificação da agricultura convencional, o consumidor português, aos poucos, está a inclinar-se para os alimentos sem químicos. As razões que a socióloga Mónica Truninger, 38 anos que dedicou a sua tese de doutoramento à agricultura biológica e editou-a no livro O Campo Vem à Cidade, descobriu para tal mudança variam entre os sustos relacionados com a segurança alimentar, conseguir saúde do ponto de vista nutricional, procurar um sabor mais apurado, preocupação com o bem-estar animal e as vantagens ambientais. "As pessoas interessam-se, essencialmente, por consumir fruta e legumes, sobretudo os que se comem crus e os que nascem mais próximo da terra, como as alfaces ou os morangos", expõe a investigadora. O fenómeno é ainda urbano, embora com tendência para se disseminar, e quase um exclusivo da classe média/alta e da faixa etária dos 25 aos 49 anos. Por vezes, o empurrão dá-se com o nascimento do primeiro filho atualmente, já existem pediatras que aconselham uma alimentação infantil totalmente livre de pesticidas.

Quase tudo o que entra em casa de Sanda Pagaimo, 38 anos, engenheira informática, natural da Bósnia, dois filhos pequenos, tem selo biológico. E, de facto, ela enquadra-se na descrição sociológica de Mónica Truninger. Para o switch off pesou "o sabor dos alimentos e a questão ecológica". E quanto ao aumento da despesa 10% ou 20% é compensado pelo tempo que os produtos aguentam frescos, sem se estragarem. Por isso, ao começar o blogue Little Up Side Down Cake, há um ano, já fazia os bolos com produtos biológicos. Nunca pensou foi no êxito que viria a conquistar, nem que seria a primeira a certificar a sua produção doméstica, toda elaborada na moderna cozinha da sua casa, depois de pôr as crianças a dormir. Pagou cerca de 300 euros e, em junho, ganhou o selo bio. Agora, distribui os seus cupcakes, muffins, brownies e bolos à fatia pelas lojas Biocoop e Miósotis. Deliciosos, são o remate ideal para uma refeição toda ela isenta de químicos. Experimentar, de forma mais ou menos consciente, será sempre uma opção de cada um.

€18
milhões Volume de vendas de produtos bio, em 2008, na União Europeia. Três anos antes, já tinham sido avaliado em 14 milhões de euros

  

'Megafone' da saúde: o que dizem especialistas
  • "Em média, os alimentos biológicos têm níveis mais elevados de vitaminas e minerais (como cálcio, magnésio, ferro e crómio), de hidratos de carbono e proteínas. Neles há também mais antioxidantes que, entre outros benefícios, ajudam a prevenir o cancro. Não contêm aditivos alimentares que agravam problemas de saúde como as doenças do coração, osteoporose ou as dores de cabeça"
    SOLANGE BURRI, consultora em alimentação e autora do site Babysol

  • "Os recetores do paladar são influenciados pelo facto de os alimentos biológicos serem mais concentrados do que os convencionais. O paladar, ao ser estimulado pelo sabor intenso, transmite-nos a sensação de saciedade, rapidamente, fazendo com que se coma menos quantidade"
    PAULA RAVASCO, nutricionista e investigadora

  • "Os legumes e as frutas biológicos são ricos em antioxidantes. Quando estão ao sol, os produtos ganham a sua proteção antioxidante. Logo, quanto mais fértil for a terra e mais lento for o seu processo de crescimento, maior quantidade dessas substâncias vão ter"
    CRISTINA SALES, médica

 

Para saber mais sobre:
  • Mitos e factos dos alimentos da agricultura biológica
  • O preços dos alimentos: Biológicos vs Convencionais

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