Quando Pedro Passos Coelho reconheceu que o nível da carga fiscal, no nosso país, é insuportável, mostrou a todos que a direita também pode ser sonhadora. Que pode ambicionar ir além do possível, rejeitar o espartilho do realismo e tornar viável aquilo que, à primeira vista, parece não passar de uma fantasia. O primeiro-ministro admite que a carga fiscal é insuportável, mas não é por isso que deixa de pedir aos portugueses que a suportem. Suportem o insuportável, diz ele. Passos Coelho descobriu uma utopia na nossa algibeira.

Acaba por ser reconfortante que, em tempos de crise, um chefe de Governo faça sonhar o povo e adopte um discurso em que a política se deixa permear pela poesia. A política não é boa, e a poesia também não, mas não há dúvida de que uma anda a permear a outra. Além de deverem suportar o insuportável, os portugueses são incentivados a olhar para o desemprego como uma oportunidade. Os rústicos que olhavam para o desemprego como desemprego devem estar bem envergonhados. Pois que façam também desse embaraço uma oportunidade: procurem a poesia no desemprego. E, como sonhar não custa dinheiro, sigamos o exemplo de Passos Coelho e descortinemos oportunidades em todas as desgraças. Porquê ficar apenas pelo desemprego? Os acidentes rodoviários são uma oportunidade para trocar de carro. Os incêndios são uma oportunidade para organizar uma grande churrascada com amigos. As cheias são uma oportunidade para fazer um passeio de barco bem romântico. E a cadeia é uma oportunidade para descansar e descobrir novas sensações no duche.

O desemprego talvez seja a oportunidade mais promissora, e por isso aquela que o Governo mais acarinha. Parece que certas empresas estão a preparar oportunidades colectivas. A indemnização por despedimento tende a desaparecer. A única formalidade a cumprir cabe ao trabalhador despedido, que deve dirigir-se ao seu ex-empregador para lhe agradecer a oportunidade. Depois de beneficiar dessa oportunidade, deve aproveitá-la para empreender e inovar. A maior parte dos desempregados reduz estas actividades ao mínimo, e limita-se a tentar empreender uma ou duas refeições quentes por dia e inovar pagando contas para as quais não tem dinheiro. O problema é que a oportunidade do desemprego esgota-se na eventualidade, felizmente remota, de o desempregado encontrar emprego. Nessa altura, perdeu a oportunidade. E, embora não mereça, talvez deva receber nova oportunidade, até para animar a sua vida. O ideal é manter-se desempregado, estado em que se mantém permanentemente a aproveitar a oportunidade. É possível que haja quem não aguente e morra. Mas a morte, não sei se já adivinharam, é uma oportunidade. Para fertilizar a terra, por exemplo. É aproveitar, portugueses.