Aos olhos de Robert Fishman, Portugal é um "caso de êxito". Este académico norte-americano, que estuda a evolução dos países ibéricos desde os anos 70, na Universidade de Notre Dame, chega a conclusões que poderão parecer surpreendentes: o sistema educativo português funciona bem, "ao nível do Norte da Europa"; a dívida não foi a causa do resgate financeiro, e consequente austeridade. Fishman, que se formou em Yale e lecionou em Harvard, conhece ao pormenor a situação portuguesa. Já se encontrou com Cavaco Silva e vem periodicamente a Portugal. Sobre a atual situação política tem algumas intuições: "O atual Governo é claramente mais neoliberal que o PS, no sentido de acreditar que o mercado, por si só, resolve todos os problemas. Mas essa nem sempre foi a posição do PSD..." Preocupado com o desemprego, e com o efeito da pobreza na qualidade da democracia, é muito crítico das instituições europeias.

"Os portugueses estão a ser submetidos a uma série de medidas de austeridade, impostas pelo resgate, que não resultam dos seus próprios falhanços, mas da dinâmica internacional. Isto é triste, num país que progrediu tanto." 

Diz que a autocrítica é uma virtude portuguesa, mas que seria bom não abusar...

Penso que há uma tendência para a autocrítica nacional, sim. A autocrítica pode ser uma coisa boa. É ótimo que os países consigam identificar os seus erros. Mas também é bom que vejam o lado positivo das coisas e não levem o exercício crítico demasiado longe. 

No seu caso, considera que Portugal é uma história de êxito. Porquê?

Nos primeiros 25 anos da democracia, até 1999, quando o euro nasceu e Portugal perdeu a sua autonomia monetária, Portugal foi um caso de êxito assinalável. Nesses 25 anos, o nível de vida aumentou de uma forma extraordinária, o desemprego era dos mais baixos da Europa, o Estado Providência cresceu numa proporção maior do que, por exemplo, em Espanha. O sistema educativo universalizou-se. Mas, melhor do que isso, o que consigo ver nos dados sobre Portugal é que o impacto do sistema educativo na democracia foi muito importante, em várias dimensões: práticas de cidadania, conhecimentos culturais. Se visto à luz de alguns indicadores culturais, o sistema educativo português aproxima-se mais do dos países do Norte da Europa do que daquele que existe nos seus congéneres do Sul. É claro que, depois de 1999, o País tem atravessado muitas dificuldades.

Considera que o problema principal de Portugal não foi o excesso de dívida?

Basicamente, sim. A dívida pública portuguesa é razoavelmente alta, acima da média da União Europeia, mas é semelhante à dos EUA, e é menor que a do Japão, da Itália e muito menor que a da Grécia. O nível de endividamento português seria aceitável se a economia crescesse e se o Banco Central Europeu cooperasse. E devo acrescentar que um nível reduzido de inflação, não um nível alto, é bastante útil para resolver um problema de endividamento. A dívida pública pode fazer sentido por duas razões: para fazer face a crises financeiras ou recessões, oferecendo estímulos keynesianos; e para fazer investimentos de longo prazo no seu futuro. Em 1974, Portugal era um país pobre e pouco alfabetizado. Precisava de fazer investimentos no seu futuro. E fê-lo. Foi sensato.

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