Paloma e João podem torcer o nariz lá na Baía, mas apetece escrever que o pai, Jorge Amado, ia gostar de ver a sua Gabriela de novo na TV. O mesmo terão pensado na Rede Globo ou o remake da novela baseada no seu romance Gabriela, Cravo e Canela, publicado, pela primeira vez, em 1958, não acabaria agendado precisamente para o ano do centenário do nascimento do escritor brasileiro.

Jorge Amado ia gostar, sim. Não entraria em comparações - o que pode uma Juliana Paes contra a mítica Sónia Braga? - nem alinharia nas críticas que desdenham da nova versão, apondo-lhe o rótulo de soft porn. "Ele era maroto mesmo", já disse numa entrevista a um programa de TV brasileiro o ator Ary Fontoura, coronel em ambas as séries.

Quem escreve estas linhas também recorda o seu olho brilhante quando, aos 70 anos, chegava a Lisboa e soltava o cumprimento: "Minha filha, você está..."

Uma delícia. Um senhor.

"A visão de mundo [de Jorge Amado] fala da opressão e é um autor que colocou a liberação sexual em primeiro plano", nota agora o argumentista da versão de 2012, Walcyr Cardoso, no dossiê de imprensa. "[A novela Gabriela] representa a liberdade sexual em um momento que isso passa a ser discutido no mundo inteiro."

A verdade é que a sua obra foi sempre tão cinematográfica e atual, apesar de o romance se desenrolar em 1925, que logo em 1961 a TV Tupi avançou com uma primeira série de 70 episódios. Realizada por Maurício Sherman, tinha como protagonista a atriz Janete Vollu, escolhida por uma comissão que incluía o escritor e a sua mulher, Zélia Gattai. A adaptação não ficaria na memória dos telespetadores brasileiros e Jorge Amado não voltaria a arriscar mais conselhos. A obra ganharia prémios, teria dezenas de edições, seria enredo de samba e história de quadrinhos. "Deus seja servido", concederia o escritor. Mas o mais próximo de uma opinião sua faria manchete numa entrevista ao Diário de Lisboa, sobre o papel interpretado por Fulvio Stefanini: "O seu Tonico é melhor do que o meu."

FOLHETIM DE CAFÉ

Em 1975, quando a Globo quis comemorar os dez anos de existência com uma segunda tentativa de Gabriela, Amado delegaria a incomodidade de acompanhar a adaptação no seu irmão James - também um grande escritor -, que tinha a vantagem de estar distanciado da obra. E uma paciência infinita.

Numa leitura livre de Walter George Durst, a novela teria quase o dobro dos episódios e estabeleceria recordes de audiência, do início ao final. Seriam seis meses em que milhões de brasileiros ficariam grudados aos seus televisores a partir das 10 da noite, sem conseguirem descolar da história da ingénua moça do sertão cujo comportamento chocava com as regras da sociedade conservadora de Ilhéus, uma cidade no Sul da Baía onde os coronéis mais os seus jagunços reinavam e as senhoras "bem" calavam.

Dois anos depois, em maio de 1977, o folhetim que relatava a transformação de uma sociedade patriarcal conservadora estreava-se na RTP - o único canal e a preto e branco -, marcando o início do negócio da exportação da Globo. Pela primeira vez, ouvia-se português do Brasil ao serão - e quem começou por estranhar e criticar acabou admitindo que era uma língua rica e gostosa, com a vantagem de agradar aos muitos cidadãos analfabetos.

Num instante estava tudo a cumprimentar-se com um "oi!" A narrativa por episódios prendia os telespectadores de segunda a sexta-feira, à hora do jantar (em Portugal, a telenovela arrancava às 8 e meia da noite). As personagens eram tão interessantes que ganhavam vida na manhã seguinte, nas conversas ao pequeno-almoço. Os cafés revelavam-se, aliás, os locais mais costumeiros para se assistir ao desenrolar da história, lembra Isabel Ferin Cunha, professora na Universidade de Coimbra, dedicada à análise dos media no espaço lusófono, e autora do estudo Revolução da Gabriela: o ano de 1977 em Portugal (publicado, juntamente com outros, em Memórias da Telenovela - Programas e Recepção, Livros Horizonte, €18).

POLITIZADA, LÁ E CÁ

Numa altura em que o FMI intervinha, pela primeira vez, em Portugal, a pedido do então primeiro-ministro, Mário Soares, havia apenas cerca de 150 aparelhos de televisão por mil habitantes. Como o hábito de ir ao café era, sobretudo, coisa de homens, seriam eles os espectadores mais assíduos e de todos os quadrantes - tendência que poderá regressar por obra e graça das ousadias da personagem de Juliana Paes...

"[Só a Gabriela] realiza o milagre de juntar toda a gente, à mesma hora (incluindo os que consideram o PS o partido mais esquerdista deste mundo e do outro), em frente do televisor e, pelos vistos, por mais que isso nos espante, com sentimentos semelhantes...", notava o escritor e pintor Mário Dionísio, numa crónica publicada no semanário O Jornal, em agosto de 1977.

O concurso A Visita da Cornélia, o outro êxito desse verão, seria rapidamente politizado, mas nada comparável à análise que os repórteres do mesmo jornal farão, dedicando, em outubro, quase quatro páginas à "Gabrielomania instalada em Portugal". Além de auscultarem cidadãos comuns, transcrevem opiniões de políticos de diferentes quadrantes. Enquanto o capitão de Abril Otelo Saraiva de Carvalho dizia que a figura do coronel Ramiro Bastos era parecida com a de Spínola, o socialista Salgado Zenha afirmava que a sociedade de Gabriela tinha muito a ver com a portuguesa por essa província fora - encontrando paralelismos com a relação pais-filhos ou as lutas políticas regionais a nível dos jogos de influência pessoais.

Mais terrena, uma professora da antiga primária referia um "efeito negativo" do folhetim na sua escola: os meninos andavam todos aos beijinhos como o Nacib. "O que seria natural se não fosse estimulado por fatores alheios..." Muito atual - e agora tentamos o salto para 2012 - é o comentário de Tomás, na altura um estudante-trabalhador com 21 anos: "Continua a haver coronéis, sobretudo naquilo que respeita ao aspeto económico."

AI, JULIANA...

A par da libertação sexual e do combate ao coronelismo, a emancipação feminina é outra das temáticas centrais do romance que todas as versões têm transposto para o ecrã - o que explica o êxito e, uma vez mais, a atualidade da obra de Jorge Amado. Não é por acaso que Malvina, a rapariguinha do cabelo de pontas arrebitadas, gera tanto sururu. Ela nasceu para provocar polémica. A atriz que lhe dá voz tinha de ser tão convincente que o realizador, Daniel Filho, testou-a no casting até vê-la explodir. Tanto criticou o seu sotaque ao ouvi-la dizer Veuve Clicquot (marca de champanhe francês) que Elizabeth Savala acabou gritando, furiosa, que estava mais interessada em representar bem do que em receber uma aula de francês.

Quase 40 anos depois, esgotado o tema da libertação sexual da mulher e não havendo censura nem caciquismo declarado para ganhar público, é para o Bataclã de Maria Machadão, onde "seu" Nacib se encontra com a Zarolha antes de conhecer Gabriela, que estão voltadas as atenções. Enquanto em 1975 (1977 em Portugal) as audiências aumentavam sempre que surgiam cenas como a de Gabriela a subir a um telhado para resgatar um papagaio de papel (Ilhéus parava para ver a sua calcinha, Brasil e Portugal também), agora são as cenas passadas naquele bordel que mais fidelizam.

O povo confessa em surdina que faz zapping para ver Juliana Paes nua e, se possível, enrolada com o seu "moço bonito", Nacib. A primeira noite de paixão dos dois seguiu direta para o YouTube, mas não vale a pena correr a clicar agora - o conteúdo foi considerado demasiado explícito para as regras do site de partilha de vídeos. Isabel Ferin Cunha, que assistiu a alguns episódios, nas últimas semanas, numa passagem pelo Brasil, não tem dúvidas: "Se a outra [versão] era sensualizada, esta é erotizada. Tem mais cenas explícitas de sexo."

O PAÍS VAI PARAR?

E tem mesmo. Logo no primeiro episódio, o corpo meio despido de Juliana Paes é explorado em grandes planos, a pretexto de um charco em plena seca, no sertão; por essa altura, no Bataclã, insinua-se que a Zarolha faz sexo oral a Nacib. "Oh, xente! Precisa não...", apetece escrever.

Trinta e cinco anos depois de Gabriela ter provocado o início de Portugal como país televisivo, Isabel Ferin Cunha está a realizar, com investigadores brasileiros, um estudo que envolve pessoas com 25 anos em 1975/77, para avaliar as diferenças dos impactos da novela original e do remake. Diz-se que, nessa época, o País parava. Mário Soares e Álvaro Cunhal eram dois dos políticos que não perdiam um episódio, e correu a lenda, já desmentida por Manuel Alegre, de que, no Parlamento, se aligeiravam as ordens de trabalhos para os deputados regressarem a casa a tempo da transmissão.

Para tanto seria agora preciso muito mais do que nudez e sexo explícito. No Brasil, a novela teima em não estourar, talvez porque o tempo já não é de ditadura nem de censura e a liberdade sexual deixou de ser novidade. Por cá, o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres nota que Gabriela é mítica e faz parte da memória coletiva do País, mesmo para quem não a viu nos anos 1970. Além do público que gosta de novelas, Cintra Torres acredita que o remake suscitará a curiosidade daqueles que acompanharam o original. Ele próprio, que aos 20 anos não perdeu um episódio, estará na cadeira da frente, na próxima segunda-feira, 10.