Se procura um animal demoníaco para envenenar os seus inimigos, a salamandra-de-pintas-amarelas é provavelmente o ingrediente mais indicado. Ou seria, se o leitor fosse uma bruxa com uma verruga horrível no nariz, a preparar uma poção mágica num grande caldeirão. Como suponho que não seja, o melhor será tentar conhecer um pouco sobre este animal e por que é que ele tem sido associado a superstições relacionadas com o fogo desde a Antiguidade.

A salamandra-de-pintas-amarelas (nome científico: Salamandra salamandra) é um anfíbio com uma ampla distribuição nacional no continente, estando apenas ausente nas zonas agrícolas do Baixo Alentejo. Habita geralmente zonas húmidas e sombrias de floresta, podendo também ser encontrada noutros habitats próximos de linhas de água. Alimenta-se de escaravelhos, formigas, caracóis, minhocas, centopeias, aranhas e outros invertebrados terrestres igualmente apetitosos (do ponto de vista da salamandra), e como qualquer anfíbio que se preze, reproduz-se na água. Apesar de ser uma espécie comum, é ocasionalmente morto por ser considerado um animal "peçonhento", devido a superstições tais como dar azar a quem se cruza no seu caminho.

Estas crenças populares não são recentes. No século I D.C., o historiador Romano Plínio escreveu que a salamandra é tão fria que extingue o fogo quando entra em contacto com este, expelindo também um líquido da boca que, tocando na pele humana, causa a queda de pelos. Portanto, em vez de andarmos a gastar milhões de euros em meios de combate a incêndios, bastaria dar ouvidos a este historiador e distribuir salamandras aos bombeiros para resolver facilmente o problema. Para além disso, um serviço de depilação sem custos adicionais daria certamente jeito a quem combate fogos florestais em dias quentes de Verão... A explicação para esta e outras descrições de autores medievais que afirmam que a salamandra nasce, vive ou cospe fogo poderá ser que estes animais se abrigam ocasionalmente em troncos húmidos, que optam (e bem) por abandonar se estes estão prestes a arder. Por isso, podemos especular que esta ideia terá começado quando alguém ficou surpreendido ao ver uma salamandra a sair de cena durante um fogo florestal ou a escapar das chamas de uma lareira acesa.

Mas os poderes miraculosos atribuídos a este anfíbio vão para além disto. Segundo o livro "Enciclopédia de Superstições, Folclore e Ciências Ocultas", se alguém tiver a coragem de lamber três vezes o ventre de uma salamandra, da cabeça à cauda, tornar-se-á resistente ao fogo e pode curar queimaduras em outras pessoas. Antes que o pessoal que trabalha em Unidades de Queimados desate à procura de salamandras, convém avisar que este animal tem uma secreção cutânea que é irritante para os olhos e, quando ingerida, pode provocar má disposição e alucinações. Estes compostos químicos tóxicos têm a função de a proteger da predação e de prevenir infeções, sendo por isso recomendável a quem manuseie uma salamandra que lave as mãos de seguida. A coloração invulgar deste animal com manchas amarelas, que também poderá ter contribuído para as superstições, serve de aviso de que não é boa ideia ingeri-la. Também é interessante notar que os padrões destas manchas são únicos, o que seria um problema se alguma delas quisesse enveredar pelo mundo do crime.

Portanto, se estiver a queimar troncos na salamandra de ferro fundido da sua casa e por uma incrível coincidência lhe aparecer uma salamandra, não está a assistir a uma manifestação do espírito elemental do fogo (como advogavam os alquimistas), mas sim a um anfíbio a tentar ir para um sítio que não provoque queimaduras mortais. Se achar que isto é impossível porque nem sequer tem uma salamandra de ferro fundido em casa, então está provavelmente a alucinar. Eu avisei que devia ter lavado as mãos...

Referências bibliográficas