A origem do orgasmo feminino alimentou discussões científicas ao longo de todo o século XX. O seu epicentro estava algures entre clítoris e vagina, consoante a fação. Até que a dupla Masters and Johnson (William e Virginia), que dominou o estudo da sexualidade, a partir da Universidade de Washington, em St. Louis, EUA, na segunda metade do século passado, estabeleceu que orgasmo que se preze é clitoriano. "Tornou-se numa espécie de 'evangelho'", sublinha Rui Miguel Costa, investigador do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa.

Mas um estudo de 2004, com mulheres paraplégicas, veio levantar as primeiras dúvidas. Apesar de, nestas mulheres, a ligação nervosa entre o clítoris e o cérebro estar cortada, elas conseguiam experienciar um orgasmo, pela estimulação da vagina. [A condução dos estímulos segue até ao cérebro através do nervo vago, numa espécie de by pass à região lesionada.]

No entanto, a verdadeira pedrada no charco chegou pela genialidade de Stuart Brody, da Universidade do Oeste da Escócia, em Paisley, Reino Unido. Brody, especialista em psicologia médica, possui no currículo um extenso trabalho na área da sexualidade e a sua principal ocupação tem sido, precisamente, destruir ideias feitas. O investigador pegou num grupo de 11 voluntárias - com idades entre os 23 e os 56 anos - e ligou-lhes um aparelho de ressonância magnética à cabeça. As cobaias estimularam, alternadamente, a região vaginal, o clítoris ou o cérvix (colo do útero). O resultado desta ressonância, dita funcional, não deixa margem para dúvidas: as regiões do cérebro ativadas durante cada estimulação são bem distintas - como se pode ver pela imagem nesta página.

"Fica assim provado que não é verdade que o clítoris e a vagina formem uma unidade. São zonas bem diferentes", resume Rui Miguel Costa, que fez o doutoramento com Brody. Apesar de ainda não ter sido totalmente assimilada pela comunidade científica - até porque o estudo, publicado no Journal of Sexual Medicine, no final do ano passado, é muito recente -, esta descoberta apresenta novas possibilidades para o tratamento das disfunções. E revoluciona o modo como pensamos a sexualidade feminina. 

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