Querem casa, uma redução na renda ou pagar as dívidas em prestações mais pequenas. Pedem ajuda para o pagamento da água e da luz. Retratam vidas do avesso. Pobreza e dificuldades que afetam todas as gerações, com as costuras da existência, antigas ou recentes, bem à vista. Relatos que não perdem a última réstia de dignidade.

"As pessoas não pretendem fugir às responsabilidades. Estão dispostas a ir até ao limite dos seus sacrifícios. A ideia de que só não trabalham porque não querem é, no geral, profundamente injusta", refere António Tavares, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto.

Foi dele a ideia de reunir em livro algumas dezenas das cartas que diariamente entopem a caixa de correio da instituição, preservando a informação mais delicada.

A obra, a lançar em janeiro, terá um enquadramento económico da situação social no País, sendo o prefácio do bispo do Porto, D. Manuel Clemente. Ao lançamento estarão associadas conferências e uma exposição do premiado fotojornalista do Público Paulo Pimenta, que cedeu gentilmente as fotos destas páginas.

"Este ano vamos gastar cerca de 4 milhões de euros na área social, quase o dobro do ano passado", revela António Tavares, para quem só o espelho do terreno devolve a imagem real da gravidade da situação. "O livro reúne cartas de pessoas que não atiram pedras, mas tentam afastar as pedras do seu caminho. A crise não é algo que exista numa folha Excel. Não se pode aplicar medidas sem dar horizontes de esperança."


AS CARTAS: