Os ingredientes estão lá todos. Só é preciso puxar pela imaginação, agitá-los bem. Para quem, como eu, seguia incondicionalmente a série da HBO, aquela espécie de garagem perdida numa rua de Moimenta da Beira podia bem servir de inspiração aos auspiciosos argumentos de Alan Ball.

O ambiente de atelier de costura "esconde" um negócio no mínimo inusitado. Fernando, 37 anos, e Sandra, 41 anos, dedicam-se há 12 ao fabrico de artigos de woven, tnt, pvc, lona de nylon e poliéster. A estrela da companhia? Sacos para cadáveres. São eles os únicos fabricantes em Portugal deste tipo de produtos. Antes embrulhavam-se os mortos num lençol. Hoje também se pode recorrer às imitações baratas da China.

Posto isto, a conversa em torno da morte fluiu com uma naturalidade estonteante. Ou não estivéssemos nós sentados ao lado de um enorme caixão e de uma urna para ossadas. No final da entrevista, e passados aos retratos, Sandra haveria de ir para dentro do caixão e Fernando estender-se-ia no chão, aconchegado dentro de um dos sacos mais resistentes do catálogo. Mas isso foi depois de termos aprendido imenso sobre este negócio.

 

[Sabia que os estrangeiros quando morrem em Portugal têm de ser autopsiados, embalsamados e viajar para o seu país numa urna de zinco, selada por causa do cheiro? E que essa urna é metida dentro de um saco - também ele selado com lacre - para passar despercebida aos outros passageiros?]

Mas nem sempre este casal ali viveu, por cima da manufatura de sacos para cadáveres. Até 2008 estavam em Vale de Lobos, na linha de Sintra, com os três filhos. Um desentendimento com o banco onde tinham conta fê-los avançar para uma mudança radical. Abençoado problema financeiro, pensam hoje. Não podiam estar mais contentes com a vida em Moimenta da Beira - ritmo mais lento, maior qualidade de vida, tempo para os filhos, produtos alimentares saborosos, custo de vida mais barato. "Aqui vivemos, lá em Lisboa não tínhamos horário", assume Fernando. Ganhavam melhor, é certo, mas perdiam muita coisa, como os jantar em família que atualmente se realizam todas as noites. Trocaram uma faturação de 800 mil euros anuais por 200 mil, mas também, agora, gastam menos 1000 euros por mês.

Ao princípio custou-lhe adaptarem-se aos horários - às oito da noite já está tudo fechado. Nem um supermercado para as emergências. Também se espantaram com a boa vizinhança. Estavam ainda em mudanças quando lhes bateram à porta a oferecer um cesto enorme de castanhas. Hoje já contam com as dádivas de quem cultiva a terra. E agradecem: "Aqui a couve sabe a couve."

 

[Sabia que um morto de hospital não tem muitos líquidos, mas que um afogado pode pesar três vezes mais do que o habitual?]

Quando estavam em Lisboa, trabalhavam diretamente com hospitais. Agora fogem desses clientes que só pagam a dois anos. Preferem fazer negócio com armazenistas hospitalares ou de funerárias, clínicas médicas e bombeiros. Como se trata de uma empresa artesanal, os artigos costuram-se de acordo com o gosto do cliente. A Lado Alto pode fabricar sacos mais resistentes, com asas, sem asas, lençóis para envolver o cadáver, invólucros para cães, para crianças. As medidas variam entre o metro e meio e os dois e vinte. Os pediátricos vendem-se pouco. Felizmente, acrescentamos nós

 

[Sabia que os corpos em mau estado, como os carbonizados ou mutilados, são metidos no caixão dentro destes sacos? E que depois eles se desfazem com os líquidos libertados pelos cadáveres?]

Fernando e Sandra perdem tempo a pesquisar novos materiais. Os que utilizam, neste momento, importam-nos de Itália e de Espanha. E também desenvolvem as suas ideias, como calções para fazer colonoscospias, páreos para uso ginecológico, soutiens para massagens ou fronhas descartáveis para marquesas. Neste momento, estão a criar batas de TNT para autópsias. "Não nos faz qualquer impressão trabalhar com a morte", confessa Sandra. E ri-se, ao lembrar-se daquela tarde em que o Fernando cismou em experimentar colocar umas asas nos sacos de PVC, meteu-se lá dentro, pegaram-lhe e ele estatelou-se no meio do chão. "Engraçado... A única coisa que não se esquece é o cheiro dos cadáveres, não se compara a nada", conta Fernando, que em tempos também se dedicou a embalsamar corpos. A morte assenta-lhes mesmo bem.