Charles Darwin é mundialmente conhecido pela sua teoria de evolução das espécies por seleção natural, mas também fez importantes contribuições para o desenvolvimento de áreas tão diversas como a geologia, a paleontologia, a evolução humana ou o comportamento animal. Depois de uma vida tão prolífera, resolveu terminar a sua notável carreira científica com uma decisão aparentemente estranha: publicar um livro sobre minhocas.

O tema poderá parecer menor, mas o naturalista ilustrou bem os benefícios que estas humildes criaturas conferem à Humanidade, e em particular à agricultura. No seu livro, lemos também como sujeitou estes invertebrados que mantinha em potes de terra aos sons de um piano, de um fagote e de gritos para concluir que eram surdos. Com estas e outras descrições, não conseguimos evitar a imagem de um miúdo irrequieto a fazer experiências com animais às escondidas dos pais. Apesar de não ter especificado exatamente que espécies de minhocas estudou, supõe-se que a minhoca-comum (Lumbricus terrestris) terá sido uma das felizes contempladas.

As minhocas são animais detritívoros que desfazem e digerem a matéria orgânica, promovendo assim a atividade de fungos, bactérias, protozoários e outros microrganismos dos quais também se alimentam. Desta forma, misturam e agregam o solo e aumentam a infiltração do ar, água e raízes através dos túneis que constroem. Ao contrário de outras minhocas que passam a vida inteira debaixo da terra fazendo-a passar pelo seu sistema digestivo, a minhoca-comum cria túneis verticais profundos, emergindo à superfície durante a noite para arrastar folhas e outra matéria orgânica para o subsolo. Esta espécie também se reproduz a céu aberto, havendo troca de esperma entre os dois indivíduos hermafroditas que copulam, antes de cada um seguir o seu caminho para o respetivo buraco.

Para evitar perturbações na circulação subterrânea, as minhocas excretam próximo da superfície, podendo formar pequenos "montículos" de terra característicos destas espécies. Tal como terá notado Darwin, a acumulação de terra - que poderá ascender a cem toneladas por hectare em apenas um ano - durante longos períodos de tempo é um dos principais fatores para que os arqueólogos possam encontrar objetos ou estruturas soterradas muitos anos depois de terem sido perdidos ou abandonados. Num mundo em que se fizesse justiça aos invertebrados, as minhocas também seriam protagonistas nos filmes do Indiana Jones e da Lara Croft.

Em vez disso, são tipicamente apresentadas num anzol, a apanhar peixes que não se apercebem que elas estão fora do seu ambiente natural terrestre. O seu papel principal como isco é, aliás, uma das principais razões por que a minhoca-comum, originalmente nativa da Europa, se tornou uma espécie exótica invasora na América do Norte. As minhocas também são utilizadas em centrais de vermicompostagem, onde se faz o tratamento de resíduos orgânicos recorrendo a estes invertebrados. Neste processo, são normalmente utilizadas espécies ubíquas que resistem a grandes variações de temperatura e humidade e com uma elevada taxa de reprodução, que não incluem a minhoca-comum. Por exemplo, em Riba de Ave (próximo de Famalicão) e na ilha açoriana de São Miguel, as minhocas fazem reciclagem de lixo doméstico orgânico em fertilizante natural, sendo provável que este tipo de centrais seja implementada em breve noutras regiões do país.

Por tudo o que foi dito, é difícil entender aquele adjetivo pejorativo de "verme" que os brasileiros usam ocasionalmente. Não será preconceito da sua parte achar que os verdadeiros vermes são desprezíveis, só porque gostam de uma dose generosa de matéria orgânica nos solos onde vivem?


Referências bibliográficas: