Contada rapidamente, esta começa por ser a história de dois canoístas rivais que perseguiam o mesmo objetivo: ser o eleito para representar o país na prova individual de K1 1000 metros. Um deles conseguiu a classificação para Portugal, mas a escolha do nome que iria a Londres 2012 cabia à federação. Que tomou uma decisão sem paralelo na história do nosso desporto: não escolheu nenhum. Porquê? Porque preferiu seguir a proposta do selecionador, homem experiente e com uma longa carreira internacional, de juntar antes os dois atletas no K2, e fazer deles uma equipa. Mais forte e com mais possibilidades de êxito do que com qualquer um deles a solo.

A decisão levantou um coro de protestos, gerou resistências nos atletas, fez mover influências e até algumas ameaças. Imperturbável, o presidente da federação, Mário Santos, escreveu aos dois canoístas a expor as premissas em que tinha baseado a decisão. Fê-lo de forma clara: "Em K1, em condições normais vão à final e em condições excecionais ganham uma medalha; em K2, em condições normais vão às medalhas e em condições excecionais ganham o ouro."

A decisão acabou por ser acatada. Mas Mário Santos ficou, a partir desse momento, refém do resultado que se viesse a verificar no campo de regatas de Eton Dorney: um falhanço do K2 faria levantar novamente os protestos e poderia até por em causa o trabalho exemplar feito na canoagem, desde 2005, com mais de 40 medalhas em campeonatos europeus e mundiais de vários escalões. O mesmo trabalho que permitiu ter agora seis atletas em Londres, quando há oito anos, em Atenas, apenas se tinha qualificado o então jovem Emanuel Santos, com apenas 18 anos. Isto, apesar de ser uma das federações que menos dinheiro recebe do Estado.

Para adensar ainda mais o clima intenso deste filme, corre, em simultâneo, uma outra história paralela. Além de presidente da federação responsável por esta decisão pouco comum, Mário Santos, designado, aos 40 anos, chefe da missão portuguesa aos Jogos Olímpicos, decide chamar para seu adjunto em Londres o ex-judoca e medalhado olímpico Nuno Delgado, 35 anos. Abre, assim uma nova "frente de batalha", já que rompe uma tradição enraizada no seio do Comité Olímpico de Portugal: uma chefia de missão assegurada por dois representantes de uma geração mais jovem, com forte ligação e proximidade aos atletas, em vez de, como era costume, dirigentes mais velhos, premiados com essa designação e quase só preocupados com questões protocolares e de representação.

Apesar da dinâmica empreendida por Mário Santos e Nuno Delgado nos meses anteriores aos Jogos, com a tentativa de formação daquilo a que chamam "Seleção de Portugal", promovendo vários encontros entre atletas e falando com todas as federações e técnicos, a verdade é que, como sempre, qualquer estratégia estava dependente dos resultados desportivos (ou antes: medalhas...). Que teimavam em não aparecer.

É neste crescendo de suspense, que as duas histórias se cruzaram,  na quarta-feira, 8, em Eton Dorney e com um final feliz... de uma prata quase de ouro. Com imagens que podem continuar a correr na tela, ao mesmo tempo que passa o genérico final: as pagaiadas vigorosas, ritmadas e velozes de Fernando Pimenta e Emanuel Silva, dois atletas com um talento imenso e um espírito notável de sacrifício, superação e de garra para vencer. Seguido de um plano intercalado de dirigentes e selecionador, aliviados e felizes por se ter demonstrado a justeza de uma decisão difícil, porventura pouco sentimental, mas com critérios técnicos inabaláveis.

A possível sequela que vem a caminho, como é moda agora em Hollywood, será já um filme totalmente diferente. Com menos ação, mas porventura com mais intensidade dramática e tensão psicológica. É um filme sobre a mudança de ciclo na direção do Comité Olímpico de Portugal, com uma história paralela centrada na forma de organização do desporto de alto rendimento, nomeadamente no modelo em que deve assentar a repartição dos dinheiros públicos pelas várias modalidades: em função dos resultados ou do número de praticantes? Será um filme muito mais centrado em gabinetes e em conversas de corredores. Mas é o filme que se impõe depois desta medalha que, de forma inquestionável, demonstrou como se pode trabalhar bem em Portugal, detetando e aproveitando talentos, formando equipas para ganhar e não ter medo de arriscar e cortar com as teias de interesses que, tantas vezes, impedem o êxito e a sua continuidade. Poderá não ter tantos espetadores é verdade, mas é o filme que o desporto português precisa. Se quer pensar em continuar a conquistar medalhas em Jogos Olímpicos.