Por muito que seja agradável querer acreditar no contrário (e dava tanto jeitinho), às vezes é mesmo preciso lembrar que a ciência económica não é exatamente ... uma ciência exata. Se fixei bem a coisa (postulado que não deve ser dado como garantido), na sua versão mais terrena (a chamada microeconomia) lida com essa maçada impertinente que é o comportamento humano. Na sua versão, vá, mais imodesta (a chamada macroeconomia), dedica-se ao estudo, medida e observação da economia como um todo. Que é como quem diz: lida com essa enorme bandalheira em movimento que é o mundo real. É verdade que muito se esforça a ciência económica por limitar a imprevisibilidade doentia do universo.  Chega a ser quase comovente observar o afã com que, por esse mundo fora, tanta cabeça brilhante, em tanta veneranda universidade, se esforça por tentar fazer da terra um lugar organizadinho, feito de hipóteses asséticas, postulados delirantes, e povoado por homo economicus tão unidimensionais como - é fácil inferi-lo - axiomaticamente chatos. Mas adiante. A verdade é que quem quer que seja que criou o cosmos, tem uma cabeça muito complicada. A verdade é que, para mal dos nossos pecados, a realidade tem uma tendência endémica para não parar quieta. Ceteris paribus, como diz o outro, agita-se, mexe-se e remexe-se de forma insuportavelmente imprevisível.

Lembrei-me desta angustiante inquietação existencial do tempo dos bancos da universidade quando, há poucas semanas, um amigo me contou um episódio curioso a que assistira. Era hora de almoço, numa pequena tasca de Lisboa. Gosto de pensar que no ar pairava um delicioso cheiro a iscas mas, para ser completamente franco, sou eu que invento. A relevância também é nenhuma. O que interessa fixar é que o patrão, empregado de si mesmo e marido amantíssimo da cozinheira, propõe a um cliente habitual da casa um tratado insólito: 10% de desconto contra o pagamento em notas. E para o caso de não ter a carteira recheada,  lembra-lhe, solícito: "O multibanco é já ali, ao virar da esquina."

Quando ouvi a história, confesso, pensei logo em Vítor Gaspar. Deram-me os calores e apeteceu-me ir dizer ao marido e à cozinheira que se abstivessem de comportamentos estatisticamente desviantes e deixassem o ministro trabalhar. Que o orçamento tinha ali muito trabalhinho, que as contas do IVA estavam feitas e refeitas, entregues à troika, e não havia direito que agora lhas viessem trocar.  Mas, devo confessá-lo, mais ainda do que censurar os agentes económicos e mais a sua imoral racionalidade, apeteceu-me dizer à realidade, essa insuportável rameira, que tivesse tino, que não fosse calista, que se deixasse estar, posta em sossego, por uns mesitos que fosse.

Esta semana, quando ouvi o ministro, pesaroso, a dar conta dos "riscos e incertezas da execução orçamental associados às contribuições sociais, ao subsídio de desemprego e à receita fiscal", percebi que o caldo estava entornado. A desavergonhada tinha feito ouvidos de mouca. Tem o diabo no corpo. É mais forte do que ela. Como uma realidade assim não há orçamento que resista.