Sempre entendi, e não vou agora desdizer-me, que o Governo português não tinha grande margem de manobra no primeiro ano do seu mandato. O País pediu ajuda externa, os mal afamados mercados não perdem demasiado tempo com esta franja de território, era absolutamente vital apostar no campeonato da credibilidade internacional. Sobretudo depois do penoso espetáculo que foi o estertor do inverno socialista.

Mais coisa menos coisa, mais gafe menos gafe, a verdade é que o Governo teria de ter percorrido o caminho que percorreu até aqui. Não tanto porque a receita imposta pela troika fosse uma revelação milagrosa ao estilo das tábuas da lei, não tanto porque a receita não encerrasse, desde o início, o perigo de criar uma espiral recessiva, não tanto porque a receita estivesse devidamente testada, mas porque a opção era nenhuma. E digo mais, porque há que ser justo: o caminho percorrido até aqui foi trilhado com uma determinação e uma coragem que não são exatamente as marcas mais fortes dos nossos governos democráticos. E a verdade é que os resultados, no tal campeonato da credibilidade externa, acabaram mesmo por despontar.

Ora, sem que até aqui tivesse verdadeiras alternativas no seu cardápio de escolhas, um ano passado de governação PSD/CDS, a grande questão que se coloca - no fundo a grande dúvida politica que existiu desde a primeira hora - é, pois, a de saber se o Governo tem aplicado diligentemente a receita da troika, porque não tinha opção ou porque acredita genuinamente no poder de redenção mágico da coisa.

E é aqui que a porca começa a torcer o rabo. Por essa Europa fora, à esquerda mas, mais relevante, também à direita (leia-se o The Economist da semana passada), são cada vez menos os que acreditam que o ortodoxo caminho imposto aos pecadores do Sul da união vai dar bom resultado. A Grécia está à beira da implosão. Em Portugal o consumo privado bateu contra a parede, o desemprego furou o teto e o regresso do País aos mercados em 2013 já é oficialmente uma miragem. Em Espanha chegou a hora do contágio. Numa Europa que é um prédio em chamas só mesmo a srª. Merkel insiste em fazer o papel da condómina que quer discutir o seguro contra incêndios antes de autorizar que se chamem os bombeiros. A srª. Merkel e... uma pequena aldeia lusitana que resiste.

Eu bem sei que há críticas oportunistas, populistas, injustas e até simplesmente indecentes. Eu julgo conseguir imaginar o poder, a força e a ira dos chamados "interesses instalados". Eu bem sei que há muito más razões para que se apele a um abrandamento da política de austeridade. E compreendo que a coragem que tem sido pedida ao Executivo para enfrentar todas estas dificuldades e resistências reforça a tendência para o isolamento, para o acantonamento, para a criação de narrativas internas nos gabinetes e nos círculos do poder que muitas vezes torcem a realidade para a encaixar no conforto das certezas pré-concebidas. Mas por muito gigantesca que seja a tarefa, por muito arriscada que seja uma descolagem da ortodoxia da troika, a verdade é que chegou a hora de dar uma condução politica autónoma ao Governo de Portugal. Passado um ano de impecáveis exames, a legitimidade internacional que até aqui não existia está largamente conquistada. Paradoxalmente, resta saber se continuará agora a existir coragem. Porque se é verdade que ela ficou patente no dizer sim, é agora ainda mais necessária no dizer basta.  Chegou, no fundo, a hora da verdadeira política.