Começou o campeonato do mundo de futebol e não se fala de outra coisa. Aliás, a euforia já era bem visível uma semana antes, por exemplo, com a chegada apoteótica dos jogadores portugueses ao Brasil.

É esta uma altura, por excelência, de elevação dos sentimentos patrióticos e do orgulho nacional, amplamente exibida nas camisolas da selecção, que miúdos e graúdos trazem vestidas, e nas bandeiras penduradas nas janelas das casas ou esvoaçando nos automóveis. E isso tem acontecido no passado, basicamente, por os jogadores serem todos portugueses, não sendo o caso das competições europeias disputadas pelas equipas nacionais. 

Este ano, o orgulho aumenta, pelo que vejo e leio, por uma conjunção de factores inédita: temos uma excelente equipa, o Ronaldo é considerado o melhor jogador do mundo, o campeonato decorre no nosso país-filho (que há dois séculos ainda morava em casa dos pais), país que se diz ser uma das grandes potências do futuro (pertence aos BRIC) e, ao mesmo tempo, com o máximo de títulos conquistados neste campeonato, por outras palavras, o que joga o melhor futebol do mundo.

Não quero fazer considerandos sobre o absurdo dos nacionalismos e da valorização da identidade cultural. Nem sequer vou questionar um orgulho pátrio tão grande baseado num conteúdo tão pequeno (o desporto deveria servir para nos distrairmos durante as horas livres e de descanso, em que não estamos a dar atenção ao essencial). Muito menos referirei o conceito de "ópio do povo" (mal o Marx sonhava...). Apenas pergunto: o orgulho é mesmo merecido? 

Vamos a factos.

No futebol, Portugal nunca ganhou nada de relevante. Nem o campeonato do mundo, nem o da Europa. Ou mesmo chegou a ser finalista mundial. Contrariamente a países "menores" no futebol, como a Grécia, a República Checa (que também se distinguiu quando era Checoslováquia), a Dinamarca, a Hungria ou a Suécia. Somos então dos "melhores do mundo" com base em que critério objectivo?

O Ronaldo é o melhor de todos, mas por consenso de opinião, pois não há campeonatos de jogadores que possam produzir um resultado inquestionável. No futebol, segundo as regras estabelecidas, não são campeões os que "jogam melhor", mas os que ganham os jogos. No entanto, mesmo admitindo a sua superioridade face aos demais, temos de reconhecer que ela não se deve a Portugal, mas à competência e eficiência dos "sistemas" dos países estrangeiros por onde ele tem passado. Qual o mérito da nação portuguesa? 

O nosso filho Brasil é o maior no futebol. Mas é também um dos países mais violentos do mundo, em 7.º lugar mundial nas maiores taxas de homicídios, quer totais quer entre jovens. Apresenta um índice de desigualdade na distribuição da riqueza (Gini) de 55%, quando nos países desenvolvidos este valor não chega normalmente aos 30% (mais de 60%, só na África do Sul e no Botswana). E nos estudos da OCDE sobre as capacidades dos jovens de 15 anos (PISA), fica nos últimos lugares de uma lista de 65 países. Tanto na "leitura", como nos conhecimentos científicos, como na Matemática, os resultados são desastrosos. Nesta última, a percentagem de miúdos que não atingiram, em 2012, o "nível de desempenho mínimo aceitável" (nível 2, texto da OCDE) é de 67%, o que indicia, segundo a mesma organização, a provável não continuação, por estes jovens, dos estudos após a escolaridade obrigatória e, consequentemente, o "risco de dificuldades no uso da leitura, no uso da Matemática ou de conceitos científicos durante as suas vidas". No caso dos chineses (cuja invasão em Portugal parece ser tão preocupante), tanto em Shangai, como em Hong-Kong, como - pasme-se - em Macau, essa percentagem não excede os 11%.

Volto a perguntar: orgulhamo-nos de quê?