Eis uma comédia francesa que repousa toda ela sobre os ombros de Audrey Tautou. Coitada... Nem a eterna Amélie tem uma compleição hercúlea - pelo contrário, encontra-se num estado anorético, diga-se, preocupante -, como o seu delicado aspeto de pássaro caído do ninho não sustenta um guião destes. Tão animado como o registo electro-cardíaco de um defunto. É que nem com desfibrilador se arrancava alguns picos de graça ou de emoção ou do quer que fosse... Na primeira parte não acontece basicamente nada: A Audrey Tattou (Nathalie) casa com o namorado e são muitos felizes. Na segunda parte o marido morre e passa a acontecer... nada: ela não consegue fazer o luto, torna-se a viúva mais cobiçada de Paris, mas nunca mais pensa em arranjar parceiro, porque "sente uma fidelidade estranha ao passado". Na terceira, beija inesperadamente um funcionário celibatário, colega de trabalho e... nada. Os amigos e colegas reprovam o casal improvável porque ele não tem interesse nenhum- e não tem. E o eleito também se acha um ser inócuo, insignificante, sem qualquer piada - e não tem mesmo. Mas entusiasma-se com o "discurso Yes We Can" do Obama, oferece PEZ num bonequinho de rena à Nathalie e lá conseguem formar o casal mais enfadonho do planeta. Faz lembrar aquela sequência do "happy couple" do Annie Hall, em que Woody Allen aborda um casal na rua e constata que eles parecem felizes e pergunta-lhes qual o segredo. Eles respondem qualquer coisa como, é esse mesmo. Ela diz: "Eu sou extremamente desinteressante e vazia e não tenho nada de especial para dizer". E ele acrescenta: "E eu sou exatamente igual".

De David Froenkinos, Stéphane Foenkinos. La Délicatesse, com Audrey Tautou, Bruno Todeschini, François Damiens, Joséphine de Meaux, Mélanie Bernier. Comédia. 108 min. França. 2011.