Em meados dos anos 1990s, era costume os alunos de biologia da Faculdade de Ciências de Lisboa passarem uns dias na ilha da Berlenga, a fazer um trabalho prático no âmbito da cadeira de ecologia animal. Numa dessas noites que passei na ilha, ouvi pela primeira vez uns sons anasalados estranhos emitidos por silhuetas voadoras, que alguém me disse serem característicos do regresso ao ninho de uma ave marinha chamada cagarra ou pardela (nome científico: Calonectris diomedea).

Estes eternos viajantes passam grande parte das suas vidas no mar, pisando terra firme apenas para nidificar nos locais onde nasceram. Portanto, e ao contrário do que se diz dos marinheiros, esta ave não tem amantes nos locais por onde passa, voltando sempre à sua terra natal para se reproduzir, escolhendo geralmente o mesmo parceiro. As cagarras têm adaptações notáveis à vida pelágica, tais como as suas narinas tubulares (por cima do bico) por onde expelem sal, e o seu voo dinâmico que aproveita as diferenças de velocidade das camadas de ar por cima do mar. Aliás, esta capacidade de voar muitos quilómetros praticamente sem bater as asas explica que algumas cagarras que criam nos Açores possam viajar mais de 1800 quilómetros para norte até zonas mais ricas em peixe e lulas durante a época de reprodução, regressando poucos dias depois para continuarem a alimentar as suas crias. Se os portugueses se pudessem deslocar com esta facilidade, de certeza que todos faríamos compras noutros países, para pagar menos impostos.

Apesar de nidificarem nas Berlengas, Açores, Madeira e Canárias, a maior colónia de cagarra em território nacional e no Mundo situa-se na Reserva Natural das Ilhas Selvagens (250 km a sul do Funchal), estimando-se esta população reprodutora em cerca de 30 000 casais. Estas ilhas foram propriedade privada durante muitos anos, sendo visitadas por pescadores portugueses e espanhóis que apanhavam clandestinamente crias e também ovos de cagarras. No fim dos anos 1960s, um inglês residente na Madeira chamado Paul Alexander Zino resolveu estudar e proteger esta espécie, comprando os direitos de caça e obtendo permissão do dono para construir uma pequena casa de abrigo na Selvagem Grande. Uns anos mais tarde, este naturalista quis adquirir as Selvagens com financiamento da organização internacional WWF, mas o Estado Português apelou ao direito de preferência, comprando e decretando estas ilhas como a primeira Reserva Natural do país em 1971. Esperemos que a tendência actual de privatizações em Portugal não as ponham nas mãos dos chineses, caso contrário, ninhos de aves e barbatanas de tubarão das Selvagens poderão acabar muito rapidamente em sopa.

Pouco tempo depois da Revolução de 1974, ocorreram dois episódios curiosos nestas ilhas: 1) Em 1975, espanhóis oriundos das Canárias desembarcaram e hastearam temporariamente a bandeira espanhola. 2) Em 1976 e 1977, pescadores portugueses e espanhóis descontentes dizimaram a população de cagarras e aproveitaram também para destruir a casa de abrigo de Zino. No final deste período, foram contabilizadas 64 crias desta espécie. Deve ter sido frustrante para os pescadores terem ficado a umas míseras 64 de limparem tudo, mas também se percebe que eram milhares de aves, algumas delas a nidificar em áreas de difícil acesso como escarpas rochosas íngremes. De qualquer modo, foi estabelecida vigilância nas Selvagens depois dessa data, o que permitiu aos resistentes e às jovens cagarras que vagueavam pelo mar durante as chacinas (a primeira reprodução ocorre geralmente aos 9 anos) reconstituir gradualmente a população nesta área. É pena que ninguém se tivesse lembrado de umas sessões de terapia com as sobreviventes, que certamente teriam ajudado a superar alguns traumas de infância.


Rotas migratórias de cagarras seguidas entre 2006 e 2010, ilustrando percursos entre as Berlengas e as Selvagens, e o Cabo da Boa Esperança
Rotas migratórias de cagarras seguidas entre 2006 e 2010, ilustrando percursos entre as Berlengas e as Selvagens, e o Cabo da Boa Esperança
© Maria Dias

As cagarras também se destacam pelas suas longas migrações, percorrendo milhares de quilómetros após a época de reprodução, para passarem o Inverno na costa Sul-africana ou Sul-americana. Investigação recente tem revelado que as rotas seguidas por estas aves se assemelham aos percursos feitos pelos navegantes durante os Descobrimentos, que são condicionados por ventos de feição e, por isso, com uma rota de ida diferente da rota de regresso. Se Pedro Álvares Cabral e outros navegantes soubessem disto, provavelmente teriam ficado desiludidos: tantos mapas, tantos instrumentos de navegação e tantos cálculos, quando só precisavam de seguir as cagarras até aos locais onde passam o Inverno. Na verdade, não teria sido assim tão fácil, uma vez que as cagarras são muito mais rápidas que os antigos navegantes (por exemplo, demoram 28 dias das Berlengas até ao Cabo da Boa Esperança), e também mais imprevisíveis (Ver Mapa). Para além de seguirem rotas diferentes para o mesmo destino consoante o sítio de onde partem e de variarem os locais para onde migram de ano para ano, há também alguns casos de viagens mais exploratórias. Por exemplo, uma cagarra de 3-4 anos estudada por investigadores portugueses resolveu visitar todos os locais onde a sua espécie passa o Inverno, percorrendo uns impressionantes 108 000 km em apenas dois anos. Só não foi a Marte porque ficava um bocado fora de mão. E fez bem, porque é preciso conhecer os cantos à casa e tomar conta daquilo que é nosso. Não vão os espanhóis das Canárias lembrar-se de espetar uma bandeira no sítio errado.

Referências bibliográficas:

 

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