O TEU ROSTO SERÁ O ÚLTIMO

De João Ricardo Pedro
Leya (208 págs., €13,30)

Por vezes, o consenso generalizado em torno de um livro, desperta adiamentos, leitura adiada para horas com menos ruído, euforia, insistência. Este romance de estreia de um engenheiro eletrotécnico desempregado, galardoado com o Prémio Leya 2011, é uma aposta ganha para levar na bagagem de férias, e usar a disponibilidade para dissecar e fruir das várias narrativas e tempos que aqui se cruzam, quebrados em andamentos vários. Dentro da História que se conta, e onde se incluem as dores do 25 de Abril de 1974 ou a queda da grande Rússia, há histórias várias: a do adolescente Duarte, pianista dotado que acabará por escolher o silêncio, a do avô Augusto que andou pela guerra colonial, a do barbeiro do salão Playboy, a do amigo de família Policarpo... Uma partitura impressionante.

JESUS CRISTO BEBIA CERVEJA

De Afonso Cruz
Alfaguara (250 págs., €15,90)

O Alentejo, afinal, pode transformar-se em Jerusalém. A bússola endoidecida tem lugar no último romance de um autor que se revela prolífico. Desta feita, ele troca as fábulas bibliomaníacas e as biografias excêntricas pelo pó alentejano, aí criando uma narrativa vigorosa e tragicómica: uma aldeia transformada em Jerusalém fictícia, com uma barragem a emular o Mar Morto e falsos judeus ortodoxos a encaracolarem suíças lusitanas, entre outras figuras estranhas (como a milionária inglesa que contrata um grupo de debate doméstico, onde se incluem um sábio hindu e um feiticeiro yorubá), citações eruditas, crimes e desvarios. Tudo isto acontece pelo amor que o velho Borja, "estéril homem das matemáticas e outras exatidões", com o coração  a bater com violência "como a cauda de um cão feliz", sente por Rosa, miúda que acredita que a mãe é a Virgem Maria...

AUTISMO

De Valério Romão
Abysmo (356 págs., €18)

Há leitores que preferem que os livros sejam experiência em velocidade de cruzeiro, a passar ao largo; outros, acreditam que as histórias que os deixam à deriva, sem bóias de salvação, é que valem a pena. Autismo é uma viagem pouco indicada para os marinheiros fracos. Pelo tema, revelado no título, e pela forma como é desenvolvido: o desmoronamento minucioso de uma família fragilizada, perante o atropelamento do filho autista, acompanhado (partilhado?) em vários registos, temporalidades e velocidades de texto. O leitor emerge deste embate a esbracejar, mas o batismo desta água literária vale a pena.

OS ANJOS NUS

De A. M. Pires Cabral
Livros Cotovia (268 págs., €18)

A paisagem é transmontana, os episódios com fundo verídico sucedem-se paredes meias com igrejas e muita devoção. A isto, acresce-se a escrita parcimoniosa e um sentido de humor, afiado e afinado. A inaugurar logo com a menina Florinda, virgem envelhecida e indignada com as partes pudibundas dos anjinhos a solta na 'sua'capela, que resolve castrar com navalha de poda a provocação genital. Mas Deus escreve certo por linhas tortas, a madeira começa a rachar... e  outras "miudezas anatómicas" aparecem. Dos oito contos aqui reunidos, dois deles são inéditos, os outros foram repescados de circulação restrita. Os leitores ficaram a ganhar.

ESCUTANDO O RUMOR DA VIDA seguido de SOLIDÕES EM BRASA

De Urbano Tavares Rodrigues
D. Quixote (144 págs., €12,90)

De Versalhes aos Alpes, da Síria a Portugal, de Madrid a Moscovo: o mundo é o palco destas personagens desgarradas, como se a alternância da geografia lhes sossegasse angústias e revelasse destinos. O escritor mostra a pena ágil e condoída de ternura, falsamente pueril, em duas novelas inéditas: fábulas contemporâneas de gente que procura perdões e redenções várias, na maioria das vezes nos braços femininos, no sexo, no olhar dos outros. Há um ex-traficante de armas que se reinventa como homem de negócios, um ator por acaso que vive a vida sem sentido, uma mulher entregue às chamas eróticas, uma esposa-criação de Pigamlião que conhece a traição... Cataventos. 

TRABALHOS E PAIXÕES DE BENITO PRADA

De Fernando Assis Pacheco
Assírio & Alvim (240 págs., €14)

"Num tempo de romances pálidos, anémicos, o romance de Assis Pacheco é uma labareda, saga ardente, acelera o coração, dá um nó nas tripas do leitor." Assim remata Jorge Amado em contracapa bem lembrada, de uma reedição com timing perfeito para ser levada e partilhada com quem estiver perto. Prosa saborosa e de rajada, história contadas sem pieguice, personagens sem fatiota politicamente correta... A história do galego que anda a fazer pela vida num Portugal convulsionado, e onde se narra com detalhe verídico a revolta militar contra o presidente Sidónio Pais, em 1918, não ganhou uma única ruga.   

DESDE QUE O SAMBA É SAMBA 

De Paulo Lins
Caminho (366 págs., €14,90)

dengo, musicalidade, divindades, vernáculo escancarado, sexo descarado... É um rodopio prazeiroso ler o novo romance do autor do visceral Cidade de Deus. Carioca de gema, ele traça um retrato sobre o Rio de Janeiro de inícios do século XX, a fauna caraterística de tipos inesquecíveis, entre malandros e mestiçagens várias, e as origens do samba. À boleia, para atar as pontas soltas, há um triângulo amoroso: a prostituta Valdirene, rainha de beleza do popular bairro Estácio, o chulo Brancura e o português Sodré, inspirado nas vagas de emigrantes lusos que desaguavam (então como agora, ó ironia histórica) no Brasil.  

A INFORMAÇÃO

De Martin Amis
Quetzal (X págs., €19,90)

Richard Tull tem "o cansaço da gravidade" que parece arrastá-lo para as profundezas: está à beira dos quarenta anos e faz recensões de livros, em vez de ser o romancista extraordinário dos primeiros augúrios. Pior: este narciso britânico, quando se vê ao espelho, confronta-se com a imagem do amigo Gwyn Barry, menos brilhante mas melhor sucedido, premiado e bem pago. E não há fúria mais temível no inferno do que a de uma amizade literária que azedou, transformada em rivalidade mortífera que permite toda e qualquer manipulação para destruir o outro. Pelo meio, passam as mulheres, o ego masculino, a feira de vaidades académica, tudo descrito pela prosa-ariete de Amis. 

A ILHA DE CARIBOU

De David Van
Ahab (312 págs., €18,95)

Partamos de novo para o Alasca com este romance que congrega vastas paisagens e maiores solidões. David Van já antes nos levara pela mão no seu livro anterior, A Ilha de Sukkwan, numa peregrinação filial que parecia substituir a redenção autobiográfica (o pai suicidou-se, pouco tempo depois do autor recusar uma temporada com ele...no Alasca). Agora, sentamo-nos com ele para uma outra cerimónia de adeuses: a construção de uma cabana numa ilha deserta, como projeto para salvar um casamento em ruínas, fustigada pelo inverno dos elementos e da alma. À beira de um lago "como um céu ampliado, branco e nublado, frio", que prova que o inferno não é só feito de labareda.

FOGOS

De Raymond Carver
Quetzal (256 págs., €16,60)

De que falamos quando falamos tanto de Carver? Uma resposta possível está neste objeto híbrido, que reúne contos, poemas, ensaios - cometas literários que deixam um rasto luminoso. Imagem que pouco agradaria ao autor, que, especifica, queria dotar objetos como um "garfo, uma pedra, os brincos de uma mulher" de um poder imenso, mas com linguagem quotidiana. "É possível escrever uma linha de diálogo aparentemente inócuo e fazer com que essa linha provoque um arrepio na espinha do leitor." Aqui, adivinha-se a sua génese: abre com um texto evocativo do pai então falecido, agradece a quem o influenciou, e ataca com poemas desassombrados e contos implacáveis, onde há bebida e carros, traições e mentiras.

O PRISIONEIRO DO CÉU

De Carlos Luiz Zafón
Planeta (400 págs., €21,90)

Para muitos leitores, Zafón é um "príncipe dos escreventes barceloneses", citando a descrição de um personagem seu (Oswaldo Darío de Mortenssen). Tem, concerteza, essa qualidade dos autores que criam leitores viciados e ávidos pelo próximo livro, íntimos de figuras de papel e osso. O que faz deste romance, um exemplar perfeito para ler com os pés enterrados na areia. Continuando a tetralogia passada numa Barcelona dada aos mistérios, depois dos volumes A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo, repescam-se agora os protagonistas arrancados ao Cemitério dos Livros Esquecidos: Daniel Sampere e Fermín Romero de Torres, que revisitam juntos prisões, literais e metafóricas, do passado.

UM VERÃO MÁGICO EM CAPE COD

De Richard Russo
Porto Editora (264 págs., €16,60)

O 'filme' é simples: uma crise existencial espoletada por uma viagem ao Cape Cod da infância, lugar de ilusões e cinematografias americanas. Um homem avalia a sua vida, questionando os frágeis-fortes fios que ligam pais e filhos. "Ao jeito de Huck Finn, Griffin fugira para os Territórios Selvagens à primeira oportunidade." Isto é, descendente de intelectuais em guerra contra manifestações de ignorância como o golfe, o condomínio, a falta de cultura académica ("simplicidade, simplicidade, simplicidade, como dizia Thoreau", prega a mãe), Griffin casa e adota um projeto de vida oposto, conforme ao da família suburbana da mulher. O final feliz rouba profundidade ao livro deste vencedor do Pulitzer Prize. Mas a leitura é veloz e gulosa. 

FAHRENHEIT 451

De Ray Bradbury
Publicações Europa-América (199 págs., €19,90)

O reencontro com uma obra é sempre um gesto arriscado. Mas (re)ler Bradbury, escritor que partiu recentemente, e cujos livros, por exemplo, de fição científica, acompanharam a época estival de muita gente, é um risco mínimo. A pequena homenagem torna-se ainda mais significativa se se escolher esta história de 1953 (adaptada ao cinema por François Truffaut), carregada de simbolismo e ressonância em tempo de iPads, e-readers e consensos economicistas: uma sociedade distópica persegue e queima livros (ou, perversamente, guarda-os mas não os lê, como diz o queimador-chefe). Até que, um dia, o bombeiro Guy Montag encontra resistentes que decoram livros, assim preservando-os. 

RELIGIÃO PARA ATEUS

De Alain de Botton
D. Quixote (X págs., €15,90)

Há quem o acuse de fast-filosofia: pega em ideias feitas, tempera-as com erudição q.b. e serve-as como sapiência para as massas. Mas o autor suíço, que já abordou o amor, a arte de viajar, a ansiedade contemporânea, ou as emoções do trabalho, consegue acender a discussão e o pensamento, além do circuito académico, na arena quotidiana. Este livro causou, obviamente, melindres: ateu confesso, Botton propõe aqui um aproveitamento dos rituais, conhecimentos e procedimentos religiosos para a vivência secular: isto é, absorver as coisas boas das crenças, como a comunhão experimentada nas missas, sem acreditar num Deus nem vergar-se à culpa. E isso pode passar por um restaurante esotérico, um templo para não crentes, ou museus organizados por temas que possam provocar epifanias...

DEBAIXO DO SOL

De Bruce Chatwin
Quetzal (432 págs., €19,90)

 

O desassossego, a prosa elegante, a aristocracia do espírito, a morte precoce, fizeram de Chatwin uma inspiração para todos os que têm outra espécie de síndrome de pernas inquietas. Este volume de correspondência (cartas, telegramas e bilhetes postais, enviados dos países por onde andou), revela um Bruce quotidiano: preocupado com as contas, a saúde, as paixões, os prazos de escrita, os temas internacionais, os planos de viagens. A Susan Sontag, por exemplo, escreve a dizer que adorou o "nosso jantar de vísceras". A Anne-Marie Mykyta, confessa, de Alice Springs, na Austrália, que "sempre que vou para o deserto, sinto-me purificado". Ao jornalista Michael Davie, escrevinha, de Homer End, em Ipsden: "Obrigado por me resgatares da horda crescente de escritores de viagens."

HISTÓRIAS DE LONDRES

De Enric González
Tinta-da-China (224 págs., €17,90)

"Há cidades belas e cruéis, como Paris. Ou elegantes e cépticas, como Roma. Ou densas e obsessivas, como Nova Iorque. Londres não pode ser reduzida a antropomorfismos." E deste precioso volume, que demora a ler mais do que uma tarde apenas por se querer evitar o fim, o jornalista espanhol (que o coordenador da coleção, Carlos Vaz Marques, lembra ter sido elogiado por Saramago) diz que é "uma declaração de amor" à capital britânica (não corrigida de propósito, apesar de alguns dados desatualizados, como os óbitos da rainha-mãe ou do governo Blair). Como um amante empenhado, ele perscruta aspetos que aos outros, indiferentes, passaram despercebidos: nós, seguimos encantados ao seu lado, por ruas e bairros, segredos e folclores, de pessoas, instituições, pubs, túneis, jardins.    

A ARTE DA VIAGEM

De Paul Theroux
Quetzal (376 págs., €16,60)

As regras de viajar, ele conhece-as todas. Provavelmente, também subverteu muitas, ao longo de cinco décadas de deambulação e de curiosidade intensa sobre o outro - seja este uma paisagem, um individuo estrangeiro ou um conceito. Theroux larga aqui os sapatos com milhares de quilómetros acumulados e abarca o "tao da viagem" - para recuperar o título original. O escritor debruça-se sobre a ideia de viajar, distribuindo generosamente quer a sapiência acumulada - e as epifanias mais comezinhas associadas como os truques dos viajantes experimentados ou as confissões menos etéreas, por exemplo, da "viagem como provação", quer as leituras da literatura, da História e das histórias de outros viajantes, como Matsuo Bashô, Marco Polo, Jean-Jacques Rousseau, Bruce Chatwin, Paul Bowles, Evelin Waugh ou Calvino... Há de tudo para todos, exploradores ou comodistas.

POESIA

De Daniel Faria
Assírio & Alvim (464 págs., €22) 

Ler Daniel Faria, poeta português desaparecido cedo demais, aos 28 anos, é uma experiência luminosa. A obra singular, atravessada por um lirismo e uma interrogação perante o mundo, é boa companheira tanto de ócio como de recolhimento. Comece-se, por exemplo, na página 81: "Anoitece como num dia de acidentes. /De noite viajo pelo tacto./ Ponho também o ouvido sobre a face dos signos/E decifro a noite esccura como um astro/ Uma estrela, um silêncio, pois vivo das palavras/Como líquen nelas (...)" Depois, é só percorrer o resto, incluindo os treze inéditos.

PENA CAPITAL

De Robert Wilson
D. Quixote (480 págs., €18,90)

As novas coordenadas geográficas do poder e da economia estão presentes no último thriler do autor premiado. O rapto de uma herdeira indiana, Alyshia D'Cruz, é o pretexto para uma radiografia ao bas fond londrino, às redes empresariais internacionais e ao mundo do fanatismo religioso. O detetive de serviço nada em a ver com os maneirismos das figuras clássicas do género literário: Charles Boxer, ex-militar e ex-polícia, um "Luther" da classe trabalhadora, com suficientes problemas familiares por resolver.  

O ESPIÃO IMPROVÁVEL

De Daniel Silva
Bertrand (624 págs., €17,75)

O primeiro romance do ex-jornalista e ex-produtor da CNN, publicado em 1996, ainda não contava com o carismático israelita Gabriel Allon, espião, assassino e restaurador de arte, que viria a povoar livros mais recentes. Mas tem um herói de serviço vindo do circuito académico: o professor de história Alfred Vicary, escolhido por Churchill (material fictício) para proteger um plano dos Aliados para o Dia D, da interferência nazi, ou melhor, da agente adormecida Catherine Blake, viúva de um mártir da guerra. Um plot clássico, que o autor protegeu com camadas de informação verídica sobre a Segunda Grande Guerra.

POR QUE CHORAMOS QUANDO CORTAMOS UMA CEBOLA?

De Teresa Firmino e Filomena Naves
Esfera dos Livros (200 págs., €16) (Sara.S.)

Para adolescentes à descoberta do mundo e adultos que não deixaram de ser curiosos, este livro das jornalistas Teresa Firmino e Filomena Naves responde a 129 perguntas, relacionadas com a ciência. Coisas simples, como a enunciada no título, e outras mais complicadas, como o segredo dos pombos-correios, que nunca se enganam no caminho de casa. Numa linguagem simples, as duas autoras, habituadas a tratar notícias de ciência, descodificam pequenos enigmas do dia-a-dia. E oferecem uma mão-cheia de temas de conversa para os gostosos tempos mortos das férias.