Em Le Skylab, filme que recentemente saiu de exibição, Julie Delpy refrescou-nos com um imenso banho de nostalgia, recriando um ambiente intenso e familiar de uma vasta família bretã dos anos 60. O pior do filme é a ponte com a atualidade, feita através da viagem de comboio, mas é também aí que Delpy afirma a sua identidade, uma defesa da família. Em Le Skylab, há um contraponto temporal. Mas o tempo presente conta pouco. O que realmente subsiste é esse mergulho no passado feliz, uma espécie de Verão Azul, verão-tipo, igual e paradigmático.
Em 2 Dias em Nova Iorque, o contraponto com essa mesma Bretanha é temporal. Há uma deslocação no espaço. Mas em vez de resistirmos na pacata região francesa, atrofiamos numa Nova Iorque fora de horas (fora de tempo). E assim, em vez de um banho de nostalgia, o filme transforma-se numa comédia, de fórmula repetida (não quer dizer que não resulte). A família campónia que vem visitar a filha à grande cidade e provoca-lhe um grande embaraço. No fundo, na linha de comédias populares como Crocodile Dundee, Um Russo em Nova Iorque ou Borat. Não se ofenda Julie Delpy com tal comparação, porque o filme francês é bem mais inteligente do que a soma dos três filmes citados. E o seu único problema talvez seja mesmo as personagens 'francesas' que são excessivamente excessivas, fruto de um estereótipo levado ao extremo, destituídas da subtileza que o filme pedia. Se Delpy encontrasse personagens tão fortes e bem desenhadas como em Le Skylab o resultado seria mais deslumbrante.
Ainda assim, 2 Dias em Nova Iorque é um filme irregular, com alguns picos de excelência, interrompidos por momentos de grande vulgaridade e humor grosseiro. A personagem de Mingus, uma versão negra de Woody Allen, é bem construída e uma espécie de anti-cliché e anticlímax. Marion, interpretada pela própria Julie Delpy, num retrato feminino e algo neurótico, funciona como um ponto regulador, na comunicação improvável entre dois mundos. E se seguirmos a máxima de Robert McKee, que os filmes valem pelos seus últimos 15 minutos, então 2 Dias em Nova Iorque está ganho. Consegue concentrar nos últimos momentos dois pormenores deliciosos que compõem tudo o que ficou desgarrado no resto da película. Não o tornam certamente uma obra-prima. Mas confirmam o que havíamos visto em Le Skylab: Julie Delpy é uma realizadora capaz do melhor.
 
2 dias em Nova Iorque, de Julie Delpy, com Julie Delpy, Chris Rock, Albert Delpy, Alexia Landeau, Alexandre Nahon