Não sei o que se passa comigo, sinto-me trinta sete. Não doze nem quinze nem vinte e um, sinto-me trinta e sete agora. O céu verde, as árvores lilazes, os prédios azul marinho, as pessoas na rua às listras castanhas e brancas e eu trinta e sete até quando? Mário de Andrade era trezentos ou trezentos e cinquenta, variava, mas como, para ele, as andorinhas surdas, não me admiro. O homem na soleira lá fora um quatro chapado. Devia tirar-lhe uma fotografia, nunca vi ninguém tão quatro, de maneira que se me perguntassem

- Como é um quatro?

mostrava-o. Às segundas, quartas e sextas o senhor bondoso que toma conta de mim leva-me a fazer exercício em Belém, caminho que me farto e com o exercício e a dieta estou elegantíssimo.

Conversamos com os pescadores, vejo charrocos, taínhas. Na maré baixa pedras sujas, um paquete enorme, no outro dia um budista a meditar na relva, arrumadores de gorgetas que metem os automóveis na algibeira, e em cujos braços as tatuagens fazem as vezes de músculos.

Um cigarrinho

- pedem eles numa amabilidade de assalto à mão armada

- Um cigarrinho, amigo

e chupam-no como as crianças as palhas dos refrescos, com as asas do nariz a moverem-se em impulsos de gaivota. Não há muitas por aqui, aliás, só as suficientes para se pensar que é o Tejo. Remadores a treinarem. O senhor bondoso que toma conta de mim não simpatiza com os fulanos que mandam no País, e eu pasmo com a sua ingratidão: como é isso possível? Repreendo-o com suavidade enquanto um charroco ao lado do pescador, no chão, não acaba de morrer. No caminho do regresso ainda lá está, vivo da costa. Toco-lhe com o pé, remexe-se, odeia-me. Olhos cruéis, fixos. O charroco não trinta e sete, mais para o quarenta e um, quarenta e dois.

Nenhum cão embora este um país de cães, só gente como eu a tornar-se elegante.

Andar é uma chatice, preferia que me empurrassem a poltrona. Tenho de concordar, sinto-me irremediavelmente trinta e sete. Quando me senti trinta e sete antes? Nas noites de domingo, às vezes, nas alturas em que o passado me vem ver e, igualzinho ao charroco, não morre. Devia haver um mecanismo qualquer, um limpa-vidros por exemplo, que o apagasse. Que sótão a minha cabeça, tanta tralha. É aí que vou buscar o lixo para os livros, papel velho, detritos, latas de conserva, bocados de garrafa, um frigorífico que deu o triste pio. Um dia darei o triste pio, não sou mais que do que ele e metem-me no sótão entre uma grafonola e uma caixa de cartão com um chapéu alto dentro. E põem tudo isto no passeio, eu incluído, para as camionetas da Câmara da madrugada, numa barulheira de latas, quedas, gritos também, de pessoas ainda vivas que protestam. Ao chegar ao automóvel as minhas pernas ardem, temos alongado o percurso. O senhor bondoso que toma conta de mim não gosta mesmo do governo, o ingrato, fala de um ministro que, no seu tempo de deputado, ganhava dinheiro com viagens que não fazia. Que mal tem isso? Os remadores dão a volta, o sujeito que os orienta, num barco a motor, grita por um funil

- Número seis

o número seis lá tenta acertar com os colegas, o vento leva metade das palavras, digo ao senhor bondoso que toma de mim

- E tudo o voto levou

os peixes amontoam-se nas bocas dos esgotos deslocando-se como punhais ou imóveis à espera que a tralha dos sótãos chegue, a grafonola, o frigorífico, eu que me sinto tão trinta e sete hoje e vou acabar no estômago de um charroco, parecem tão feitos de pedra que não sei como funcionam, nunca vi pedras mastigarem, mandíbulas de granito triturando calcário, o céu verde, as árvores lilazes, os prédios azul marinho, as pessoas na rua às listras castanhas e brancas, não sei o que passa comigo, sinto-me trinta e sete, a tarde ainda agora começou e sinto-me trinta e sete, duas mulheres passam por mim a correr, um senhor idoso, de tronco nu, escorre a estearina da pele pelos braços abaixo, no lado oposto do rio silêncio, paz, quinta-feira passada pedi à minha mãe Sente-se ao meu colo e ela sentou-se e poisou a mão na minha, o que aconteceu à sua mão, mãe, diferente da altura em que eu pequeno, o seu corpo tão leve, um cheiro que não conheço e eu comovido, ganas de pedir Não saia daqui os meus irmãos por perto, o meu pai não sei onde, acho que em toda a parte, cabe nos meus joelhos também mas não se sentou, não veio, há-de aparecer daqui a pouco com aquele gesto dos dedos Bem vês e bem vejo o quê, pai, quando chamava Pai ao meu avô eu confuso, pai era ele, o meu avô era avô, lá está o avô na parede a saltar a cavalo, olhando para trás na esperança de não ter derrubado o obstáculo e o obstáculo intacto, descanse, a fotografia do meu outro avô na cómoda, um retrato meu na parede a olhar não sei para onde, a minha mãe levanta-se do meu colo, quase não tem peso, quase não existe, quase não vê, lembro-me dela a dançar o charleston sem música, o que lhe sucedeu, mãe, nada disto é verdade, garanta-me que nada disto é verdade, lembro-me de a ver dar de mamar, lembro-me de si em fato de banho na praia, o senhor bondoso que toma conta de mim Olhe que vai pelo meio da rua, António claro que vou pelo meio da rua na esperança que a minha mãe Vem imediatamente para o passeio, nunca mais tens juízo e, pela primeira vez na vida, que bom obedecer.