Os escritores são todos uns fingidores, já se sabia antes do Pessoa vir dizer que ele também, como se fosse uma grande novidade, e não só os poetas. Veja-se por exemplo o Bernardim, com aquele enredo sobre uma Aónia que fosse uma Joana que tivesse sido amada por um Binmarder que fosse ele próprio de letras  trocadas. Tudo isto numa novela escrita como a autobiografia de uma Menina que não era ele nem a outra, mas o desejo irrealizado de que fossem. No entanto não há autobiografia mais verídica do que esta, sobretudo naquilo que não conta. Ou pelo menos tão verídica quanto o realismo de uma escritora renomada pela objetividade documental dos seus livros, como a Doris Lessing, cuja factualíssima autobiografia estive a reler há dias.
O primeiro volume passa-se na Rodésia, antes de ela ter vindo para Londres. É nesse contexto que, a páginas tantas, surge lá um meu velho amigo português (não vou dizer o nome porque não sou de intrigas) que ela só conheceu em Londres, décadas depois, e que nunca esteve em África. Àparte isso, os factos são (quase todos) tal e qual. O propósito da Doris Lessing, no entanto, está longe de ser tal e qual, é exatamente o oposto: comemorar um escritor que nunca escreveu.
A passagem onde diz isso (em má tradução minha) começa assim:
"Conheci alguns potenciais escritores que tinham nas suas mentes livros perfeitos que nunca poderiam ser escritos, tinham de ser preservados da vulgaridade e do contágio dos nossos pensamentos. Um deles merece comemoração."
Então descreve as circunstâncias biográficas do meu amigo, acrescentando-lhes alguns factos mais plausíveis do que verídicos. Diz que foi educado em Espanha pelos jesuítas (mentira), que se tornou marxista (ele achava que era), que foi clochard em Paris (verdade) e que por duas vezes se casou com raparigas inglesas que depois abandonou, com quatro filhos cada uma delas, em caravanas onde as tinha persuadido a viver com ele, longe da cidade corruptora. Hum..., foi mais ou menos assim.
E acrescenta: "Entretanto ele trabalhava - na mente - no seu livro. Olhava-nos com olhos firmes e dizia, 'Porquê escrevê-lo? Para quê fazer compromissos?'"
Até aqui tudo (mais ou menos) bem. Mas a Doris Lessing estava a pensar em África enquanto escrevia em Londres sobre um escritor que nunca escreveu e que nunca esteve em África e, realisticamente, como lhe cumpria sendo uma escritora que escrevia livros, inventou uma conclusão plausível à história do meu amigo:
"Depois de ter abandonado a segunda família, obteve um cargo administrativo numa das inumeráveis organizações internacionais que dão conselhos aos fragmentos dos antigos impérios europeus. Os serviços a que ficou vinculado eram chefiados por uma mulher negra, uma feminista que tinha quatro filhos cujos pais a tinham abandonado, deixando-a com os filhos. Ele foi viver com ela: tinha encontrado o seu destino. Por vezes visita a Europa. E como é que a sua obra prima literária está a andar? Ele fixa um olhar calmo e firme, cheio de desprezo pelas venalidades da vida literária. 'E porque razão a deveria escrever? Está perfeitamente segura onde está.'"
Pois é, na versão da Doris Lessing, o meu amigo era um fingidor que se recusava a fingir. Enquanto que ela, com pedaços deste ou daquele e, não menos, de si própria, criava gente que não havia, que nem o doutor Frakenstein. Ofendendo por isso muito boa gente da que havia, é claro. Amigos e amigas que se reconheciam em quem não eram no fingimento de quem fossem. A mim até me pôs sexualmente apaixonado por uma gata com cio. I wish...
Mas essa de os impuros fingidores que escrevem livros (ao contrário dos fingidores puros, que não escrevem), serem uma espécie de doutores Frankenstein que constroem quem não existe com pedaços de quem existe também já me criou alguns problemas com bons amigos que se tornaram ex-amigos. O pior foi num meu romance também parcialmente situado em África e também aparentemente autobiográfico. Havia, numa circunscrição na Zambézia, nos anos 40, um impoluto médico que fez o possível e o impossível para curar as populações indígenas das lepras e elefantíases que as dizimavam. E, na circunscrição vizinha, havia um facínora a fingir de médico que enriqueceu à custa de corruptos negócios de pedras preciosas. Como a alma humana é um abismo (também não era só o Pessoa a fingir-se de Álvaro de Campos que sabia), juntei os dois médicos num corpo só. Resultado: o corrupto, que ainda estava vivo com Mercedes e vivenda no Estoril, não se queixou de ter sido melhorado. E os filhos do impoluto, que morrera em sóbria dignidade, tendo sido meus bons amigos desde sempre, ficaram ofendidíssimos e nunca mais me falaram. Sim, claro, têm toda a razão, escusava de ter escrito aquilo, desculpem lá, escusava perfeitamente de ter escrito esse ou qualquer outro livro.
Donde se conclui que a Doris Lessing fez muito bem em comemorar o escritor que nunca escreveu para que a sua obra ficasse para sempre segura e perfeita nos abismos incontaminados da alma humana.