A tese dominante do universo Dogma/Zentropa, a produtora/escola dinamarquesa 'de' Lars Von Trier, faz sobrepor à descrença no indivíduo a descrença na sociedade. Por isso é que tudo se torna sempre tão desconcertante. É que, enquanto entes coletivos as sociedades ou comunidades estão preparadas, encontram recursos para se protegerem dos loucos e dos vilões, se possível livrando-se deles como ervas daninhas pouco representativas no todo florido. Mais difícil e assustador é aceitar que a podridão floresce disfarçada pelas cores das lezírias. Esta descrença da sociedade é óbvia em muitas obras de Lars Von Trier, como Dogville (2003), em que a sociedade aniquila cruelmente o indivíduo. Acontece também em Dancing in the Dark  (2000), Ondas de Paixão (1996) e em Europa (1991) - este último, um caso paradigmático, em que o indivíduo bem-intencionado é devorado pela Alemanha pós-guerra que tenta ajudar.
Essencial diferença em A Caça, de Thomas Vinterberg, é que não há qualquer ensaio sobre a xenofobia. O indivíduo não é estrangeiro, não vem de fora, e até está enraizado de forma consistente e até secular no meio que o envolve. Mas isso não impede que o meio, por suspeita mal fundada, o devaste. A Caça é feito de dentro para dentro. Ele é perseguido pelos colegas de trabalho, pelos amigos, por aqueles que o viram crescer. A conclusão é sempre a mesma: há algo de podre no Reino da Dinamarca.
Começamos pela filiação no universo Dogma/Zentropa porque ela nos parece evidente, não só a nível ideológico, como a nível estilístico. Já foi abandonado o dogma inicial da câmara ao ombro, mas no cinema Vinterberg encontram-se ainda as suas consequências. Ficou uma certa rudeza com que ilustra, de forma algo fria, um realismo social, construído geralmente em pequenos meios, bem diferente do neorrelalismo italiano e mesmo do da nova vaga de cinema romeno. É eminentemente cerebral e ousa construir teses em vez de apenas contar histórias.
Ainda mais óbvio é encontrar o fio condutor dentro do trabalho do próprio Vinterberg. Em 1998, realizou A Festa, em que numa cerimónia familiar, num meio rico e opulento, com pompa e circunstância, revela-se que o avô, o patriarca, tinha práticas pedófilas com os netos. É um desmoronar de aparências, que nos surpreende com a revelação de que a família está fétida a partir do seu mais respeitável topo. No caso, a podridão do indivíduo arrasta a podridão social. Em A Caça, não há uma mudança de perspetiva, com em Michael, de Marcus Schleizner, em que a história é contada do ponto de vista do pedófilo. Aqui há uma deturpação social fruto da paranoia. O indivíduo é perseguido implacavelmente pelo meio que o envolve, após uma conclusão precipitada: a suspeita de pedofilia converte-se rapidamente numa certeza generalizada. E nem a inocência provada em tribunal o iliba da afronta da comunidade. A sociedade é cruel e não lhe dá o benefício da dúvida.
Mas Thomas Vinterberg não é Lars Von Trier. Não é um anticristo, nem eleva tudo o que faz ao limite cáustico. Resta-lhe, apesar de tudo, alguma esperança na humanidade. Uma fé porventura religiosa. E faz por reconverter e perdoar, não o indivíduo que não peca e por isso não precisa de ser perdoado, mas sim a sociedade em que se insere. Contudo, a conversão da sociedade não apaga as máculas. Ficam traumas e cicatrizes. E, sim, algo continua podre no Reino da Dinamarca.
 
A Caça, de Thomas Vinterberg, com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm- 115 min